ALAN 70 anos e a Solidariedade: Como uma Gestão Democrática Transforma Milhares de Vidas em Porto Alegre

Entrevista com Luciano do Amaral | Escritor Alberto Dal Molin

A força de uma comunidade frequentemente repousa nas estruturas de solidariedade silenciosas que se formam longe dos grandes holofotes. Quando o estado falha em prover o mínimo de dignidade ou quando as adversidades sociais se mostram severas demais para serem superadas individualmente, é o terceiro setor — guiado pela compaixão humana autêntica — que assume a linha de frente. Uma das histórias mais longevas, emocionantes e estruturadas desse cenário filantrópico no Rio Grande do Sul é a da Associação Liga de Amparo aos Necessitados (ALAN).

Em um encontro profundo e esclarecedor no Canal Energicy, Alberto Dal Molin Filho recebeu Luciano do Amaral, atual presidente da ALAN, na Livraria Paisagem, no Shopping Bourbon Carlos Gomes. A pauta do dia girou em torno de um marco monumental: a aproximação dos ALAN 70 anos e a solidariedade ininterrupta em benefício de crianças e famílias vulneráveis de Porto Alegre.

Neste artigo extenso e detalhadamente articulado, vamos percorrer os meandros dessa história fascinante. Analisaremos as origens modestas da ALAN na comunidade da Bom Jesus, a retomada vital promovida por casais altruístas nas décadas seguintes, o processo de profissionalização da instituição junto ao poder público e a abrangência formidável de seus projetos atuais. Da educação infantil de turno integral às Práticas Integrativas Complementares em Saúde (PICS), exploraremos como o atual presidente e sua equipe conduzem uma verdadeira “gestão democrática” que cuida de vidas, alimenta esperanças e forja os cidadãos do futuro.

A Semente da Solidariedade: A Fundação da ALAN na Comunidade Bom Jesus

Toda grande árvore, por mais frondosos que sejam os seus galhos no presente, germinou de uma semente minúscula plantada em terreno fértil. A história da ALAN nos remete a quase sete décadas atrás, na região de Porto Alegre que hoje conhecemos como bairro Bom Jesus (historicamente uma área de chácaras com muitos assentamentos irregulares de famílias empobrecidas).

Segundo Luciano do Amaral, que hoje dirige a instituição e que é morador da região há 52 anos, o cenário daquela época era desolador. Famílias careciam do básico: habitação, alimentação e, de forma muito severa, enfrentavam doenças infectocontagiosas graves, como a tuberculose. Foi nesse ambiente de carência extrema que surgiu um casal abnegado: Alberto e Marieta.

Eles faziam parte do Lar Espírita e carregavam consigo uma forte religiosidade voltada à caridade. Diferente daqueles que olham para a pobreza e desviam o rosto, Alberto e Marieta decidiram agir. A solidariedade exigiu estruturação: eles perceberam que distribuir mantimentos não era suficiente. A comunidade precisava de um espaço fixo para o cuidado contínuo das crianças vulneráveis e dos doentes. Assim, próximo à comunidade, eles ergueram as primeiras paredes de um prédio e fundaram a Associação Liga de Amparo aos Necessitados (ALAN). Era o início do que viria a se tornar a instituição social e a escola (ou creche) mais antigas de toda aquela área.

O legado desse casal original reverbera até os dias de hoje. Como bem pontuado por Dal Molin, eles não deixaram apenas tijolos e argamassa; eles deixaram o “pontapé inicial” de um amor estruturado que se enraizaria para sempre no solo da capital gaúcha.

O Renascimento Institucional: A Década de Eunice e Luís Abreu

Instituições conduzidas por voluntários costumam enfrentar o risco do declínio após o falecimento de seus fundadores originais. Com a ALAN não foi diferente. Houve um período de arrefecimento após a partida de Alberto e Marieta, onde as portas quase se fecharam por cerca de um ou dois anos. Contudo, a necessidade local clamava por atendimento, e o universo prontamente respondeu através de um novo grupo de altruístas.

Entram em cena Eunice e Luís Abreu. Membros da Igreja Luterana e dedicados ao trabalho pastoral nas periferias, o casal enxergou o potencial inativo da ALAN e decidiu arregaçar as mangas. Luciano do Amaral possui uma ligação emocional intensa com essa fase da instituição, pois a sua própria mãe trabalhou na ALAN como cozinheira e artesã naquela época, e seus próprios filhos foram atendidos pelos programas da entidade.

A gestão de Eunice e Luís perdurou por incríveis 26 anos (ou 28, conforme as memórias cruzadas na entrevista). Durante esse vasto período, eles não apenas ressuscitaram o trabalho pedagógico e o assistencialismo que existia, como o expandiram brutalmente. Foram eles os responsáveis por ir a campo em busca de novos apoiadores e por estreitar os primeiros grandes laços duradouros com o poder público (fato que se consolidaria firmemente a partir de 2017). O amor e a estruturação oferecidos por Eunice e Luís Abreu salvaram a instituição e prepararam o terreno para o que a ALAN se tornaria no século XXI.

A Magnitude da ALAN Hoje: Duas Sedes e 500 Crianças

Se no passado a ALAN era um esforço heroico e braçal de pequenos grupos, hoje ela opera como um verdadeiro maquinário de transformação social de alta complexidade. Celebrando a marca da ALAN 70 anos e a solidariedade, o presidente Luciano do Amaral, há quase cinco anos à frente da gestão executiva e administrativa, descreve uma estrutura que impacta diretamente mais de dez mil pessoas ao mês.

Atualmente, a instituição está dividida em dois grandes eixos territoriais e físicos: a sede original na Bom Jesus e uma sede secundária e igualmente pujante no bairro Passo das Pedras (ALAN Maria Teresa), que foi abraçada pela instituição há 22 anos. Nessas duas bases, três grandes pilares de atendimento (em convênio formal com a Prefeitura de Porto Alegre e a FASC) garantem a sobrevivência e a evolução de cidadãos vulneráveis.

1. A Educação Infantil (A Base da Primeira Infância)

O que antigamente era chamado apenas de “creche”, sob o estigma de ser um simples local para “depósito de crianças”, hoje é rigorosamente tratado como Educação Infantil de turno integral. Como atestam as coordenadoras Pâmela e Daniela (apresentadas no clipe documental exibido ao fim da entrevista), a ALAN atende 187 crianças de zero a seis anos nas duas sedes (sendo 108 na Bom Jesus e 79 no Passo das Pedras).

Essas crianças, provenientes de áreas de alta vulnerabilidade, chegam à instituição pela manhã e permanecem o dia inteiro. Recebem nutrição balanceada, cuidados de higiene e, primordialmente, um desenvolvimento socioeducativo. O método pedagógico é firmado no protagonismo e na estimulação cognitiva. A escola de educação infantil não apenas alfabetiza o cérebro, mas educa o caráter, inserindo a comunidade e a família diretamente no processo.

2. O Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV)

Antigamente chamado de SAS (Serviço de Apoio Socioeducacional), o SCFV é o programa de maior abrangência numérica da ALAN. Ele foca no “contraturno escolar”. Um adolescente que estuda na rede pública regular durante a manhã passa a sua tarde na ALAN (e vice-versa).

Isso resolve um dos maiores gargalos da desigualdade social brasileira: a ociosidade infantojuvenil em bairros periféricos, porta de entrada para a criminalidade. A ALAN abriga 260 crianças na Bom Jesus e centenas de outras no Passo das Pedras, perfazendo quase 500 jovens atendidos com alimentação reforçada, desenvolvimento rítmico, tecnológico e criativo. Segundo as palavras de Luciano, ali se ensina que aquelas crianças são “cidadãos de direitos”, rompendo o ciclo invisível da exclusão social. As próprias crianças testemunham no documentário que o espaço é repleto de atividades lúdicas (futebol, refeições em grupo, passeios e oficinas) que os afastam da marginalidade das ruas.

3. O Serviço de Atendimento Familiar (SAF)

Uma criança desestabilizada invariavelmente provém de uma família desestruturada. Compreendendo essa dinâmica, a ALAN mantém o Serviço de Atendimento às Famílias (SAF).

Luciano menciona que as metas acordadas com o poder público indicavam o acompanhamento de 500 famílias por eixo (totalizando 1.000). A gravidade da crise econômica brasileira, no entanto, forçou a ALAN a ultrapassar essa marca de forma esmagadora. Segundo o relatório final do vídeo, no ano de 2023, o SAF atendeu a 1.509 famílias. Uma equipe técnica composta por assistentes sociais (como Sandra, que depõe no vídeo) e psicólogos atuam complementarmente ao CRAS (Centro de Referência da Assistência Social), garantindo que os direitos básicos dessas famílias sejam assegurados. É um trabalho preventivo de reestruturação de vidas adultas para que possam ser provedoras de afeto e segurança aos seus filhos.

Inovação na Saúde Mental: O Revolucionário Projeto PICS

O ápice da inventividade da atual gestão de Luciano do Amaral e de sua braço-direito, a diretora e parceira institucional Daniela, reside no projeto PICS (Práticas Integrativas Complementares em Saúde). É aqui que o tema ALAN 70 anos e a solidariedade atinge o seu refinamento contemporâneo.

Luciano e Daniela notaram um padrão assustador no pós-pandemia, que foi subsequentemente agravado pelas trágicas enchentes que açoitaram o Rio Grande do Sul: a completa falência da saúde mental da comunidade. A fome de comida havia sido suprida pelos refeitórios; no entanto, a “fome de alma”, a depressão, o estresse pós-traumático e a ansiedade estavam consumindo desde as crianças até os funcionários e familiares.

Com extrema argúcia, eles buscaram verbas através de emendas parlamentares e implementaram o PICS dentro do Sistema Único de Assistência Social (SUAS). O diferencial do projeto concebido pela ALAN é a sua abordagem coletiva. Ao invés do tradicional atendimento psicológico fechado entre quatro paredes e individualizado (o que encarece e engessa a capacidade de resposta em larga escala), o PICS promove intervenções coletivas milenares.

Sessões de meditação, reflexologia, dançaterapia e fitoterapia (colocar a mão na terra, nas plantas) são promovidas. A proposta não é apenas tratar um sintoma, mas reintegrar o indivíduo ao conceito de grupo social. Nas palavras de Luciano: “O coletivo deve se entender como um corpo. Nossas ações interferem na vida das outras pessoas”. Desacelerar a rotina caótica das mães de periferia, permitir que os jovens respirem e encontrem alegria no momento presente é a maior demonstração de amor preventivo que a instituição tem entregado. O “projeto de vida é ser feliz”, resume o presidente, deixando Alberto Dal Molin visivelmente encantado com a maturidade do projeto.

O Desafio Heróico da Gestão: “Parceiros, não apenas Doadores”

Como se financia um transatlântico de solidariedade que distribui (de acordo com Dal Molin) cerca de 5.000 refeições diárias e suporta a folha de pagamento de dezenas de educadores, pedagogos e técnicos de assistência social?

Luciano, formado em Administração e íntimo da área social, é franco sobre a realidade financeira do terceiro setor no Brasil. Os convênios com o governo (Prefeitura de Porto Alegre e FASC) cobrem uma parcela vital da operação, mas “não sanam todas as necessidades”. O valor per capita repassado pelo estado invariavelmente defasa. Para que a luz não se apague, a diretoria trava uma batalha administrativa diária.

A instituição compõe a sua receita através de editais governamentais, emendas parlamentares, eventos de arrecadação física e contribuições do programa Mesa Brasil (do SESC) e Banco de Alimentos. Porém, Luciano frisa a mudança de léxico e de atitude da sua gestão. O lema agora é buscar “Parceiros, não apenas doadores”.

Um doador entrega uma quantia financeira e lava as mãos. Um parceiro entende a visão de longo prazo. Luciano argumenta enfaticamente, direcionando a sua mensagem a empresários e governantes de todo o Brasil que assistem ao canal, que depositar dinheiro na ALAN não é um ato de caridade paternalista; é um investimento logístico no futuro da cidade. Uma criança que escapa da ociosidade das ruas através da ALAN e que tem a sua saúde mental e escolaridade garantidas, jamais dará prejuízo ao estado no sistema penitenciário no futuro. A transformação de ex-educandos em médicos, engenheiros e até jogadores de futebol em times europeus (como citado por Luciano) atesta o estrondoso Retorno Sobre o Investimento (ROI) social que a ALAN propicia à sociedade porto-alegrense.

A Visão Literária de Alberto Dal Molin: Os Perigos da Permissividade

Coroando a entrevista de quase meia hora, Alberto Dal Molin Filho presta as suas devidas homenagens, entregando a Luciano do Amaral o seu livro Perigos da Educação Permissiva. A obra escolhida não foi acidental; a sua temática serve como a luva perfeita para as mãos daqueles que trabalham com educação comunitária.

Dal Molin narra o enredo envolvente de sua criação literária: um homem batalhador, que viaja o globo enfrentando perigos e testemunhando a miséria absoluta em países paupérrimos (Somália e República Democrática do Congo), cria ONGs e ascende meteoricamente como um alto executivo em Nova York. No entanto, cego pela falsa ideia de proteção e consumido por um amor distorcido, esse executivo decide que criará o seu futuro filho sem a imposição de regras, limites ou negativas. “O filho nunca ouviria a palavra ‘não'”. O livro retrata a queda em espiral e as consequências trágicas da permissividade irrestrita.

O presidente Luciano agradece o livro com entusiasmo, garantindo que além de o ler pessoalmente, os exemplares integrarão o acervo da biblioteca da ALAN. A conexão feita por Dal Molin é sutil, mas profunda. As crianças da ALAN, embora vivam à margem econômica da sociedade, recebem ali não uma “educação frouxa” movida por mera pena. Elas recebem instrução pedagógica, regras de convívio (através do serviço de convivência) e terapia (através das PICS). O amor que as resgata é aquele que estabelece fronteiras saudáveis, o total oposto da negligência (causada pela rua) e da permissividade desmedida.

Conclusão: O Farol da Bom Jesus

A entrevista sobre a ALAN 70 anos e a solidariedade presente no Canal Energicy funciona não apenas como um tributo a uma ONG de Porto Alegre, mas como um manual de esperança para o terceiro setor no Brasil inteiro. Ela nos ensina que a solidariedade não deve ser uma emoção passageira, deflagrada apenas diante de catástrofes midiáticas ou enchentes; ela precisa ser uma estrutura contínua, administrada com a frieza de uma empresa e o calor de um coração humano.

A história viva de Alberto e Marieta, perpetuada pelo suor de Eunice e Luís Abreu, e hoje magistralmente expandida pela gestão contemporânea e arrojada de Luciano do Amaral, prova que uma comunidade pode ser transformada. Não importa o nível de privação de uma chácara na antiga periferia da cidade; quando indivíduos se recusam a aceitar a miséria alheia, erguem-se prédios, escolas e sonhos.

A mensagem deixada aos espectadores por Dal Molin e pelo clipe documental final é inquestionável: cada centavo, cada hora voluntária e cada pensamento de boa vontade investido em instituições como a ALAN reverberam pelas gerações. Quando cuidamos das crianças da Bom Jesus e do Passo das Pedras, estamos, inegavelmente, curando a nós mesmos e salvando o futuro da nossa nação.

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