A história da literatura e dos grandes eventos culturais do Brasil está sendo reescrita de maneira marcante. Pela primeira vez em 72 anos de trajetória ininterrupta, a Feira do Livro de Porto Alegre — amplamente reconhecida como a maior feira de livros a céu aberto de toda a América Latina — passa a ser liderada por uma mulher. A gestora Roseni Siqueira Kohlmann assumiu a presidência da Câmara Riograndense do Livro, inaugurando um capítulo histórico e profundamente transformador para a cultura sul-rio-grandense e nacional. Em uma entrevista exclusiva concedida ao canal Dal Molin | Energicy, Roseni abriu o coração para compartilhar sua trajetória pessoal, memórias afetivas de infância ligadas ao evento, os complexos bastidores da organização e as grandes expectativas para esta edição memorável.
Da Leitora Mirim à Liderança Máxima: Memórias Afetivas e o Amor pelos Livros
O despertar para o universo da leitura na vida de Roseni Siqueira Kohlmann aconteceu de forma orgânica e profunda, tendo o ambiente familiar como o seu principal alicerce. Filha de um leitor assíduo e dedicado, ela cresceu cercada por estantes repletas de obras literárias. Naquela época, era comum que as crianças manuseassem livros que muitas vezes extrapolavam a sua faixa etária, mas que funcionavam como um convite irresistível à imaginação e ao aprendizado.
Essas primeiras experiências criaram laços indissolúveis com a literatura. Ao lado de seus irmãos, Roseni frequentava a tradicional Praça da Alfândega desde a infância, criando memórias afetivas duradouras que mais tarde moldariam o seu destino profissional e a sua relação visceral com o maior evento cultural de Porto Alegre. Esse histórico familiar comprova como o incentivo precoce no ambiente doméstico é determinante para a formação de cidadãos leitores e apaixonados pela cultura.
A Trajetória Profissional no Mercado Editorial e o Caminho até a Presidência
O que começou como uma paixão cultivada na infância transformou-se em uma carreira sólida e respeitada dentro do ecossistema do livro. Atuando profissionalmente na área comercial de uma importante instituição que congrega livraria, distribuidora e editora, Roseni passou a enxergar o evento sob a perspectiva de quem movimenta a engrenagem do mercado livreiro.
Essa imersão diária no setor abriu portas para que ela integrasse a diretoria da Câmara Riograndense do Livro, onde permaneceu ativa ao longo de dez anos. O grande marco decisivo para aceitar o convite à presidência veio após um período de quatro anos atuando como tesoureira da entidade. Essa função técnica e administrativa proporcionou a ela uma visão macro e detalhada de todas as complexidades financeiras, operacionais e logísticas necessárias para manter a feira funcionando com excelência.
O Protagonismo Feminino e a Força da Cadeia Produtiva do Livro
Embora a ocupação da cadeira presidencial por uma mulher seja um fato inédito em mais de sete décadas de história, a presidente faz questão de pontuar que a Câmara Riograndense do Livro sempre foi movida por uma expressiva base feminina. Editoras, livreiras, distribuidoras e produtoras culturais sempre desempenharam papéis fundamentais na sustentação do evento.
Olhar para trás e perceber que a galeria de ex-presidentes era composta exclusivamente por homens traz um senso nítido de responsabilidade histórica, mas também de renovação e justiça social. A gestão atual consolida uma forte sinergia feminina no cenário literário do estado, somando-se à repercussão inspiradora de grandes ícones da literatura gaúcha, como a escritora Marta Medeiros, reforçando a representatividade das mulheres nas esferas de decisão e criação artística.
Bastidores, Resiliência e Desafios na Organização da Feira
Organizar um evento cultural de proporções monumentais exige um planejamento contínuo e incansável. Segundo relata a presidente, o encerramento de uma edição marca imediatamente o início do planejamento para o ano seguinte. A instituição carrega em sua trajetória uma capacidade impressionante de resiliência, tendo superado momentos extremamente desafiadores ao longo das décadas.
Entre os episódios rememorados estão os anos de censura durante o regime militar, as adaptações forçadas para o formato totalmente online durante o período da pandemia de COVID-19 e, mais recentemente, a superação exemplar frente às graves enchentes que afetaram o Rio Grande do Sul. O sucesso perene da feira reside na paixão coletiva de sua equipe e no apoio vital de parceiros estratégicos e patrocinadores de peso, a exemplo de Zaffari, Petrobras e Banrisul, cujos investimentos viabilizados por leis de incentivo garantem a gratuidade e o acesso universal à cultura.
Expansão Nacional: Levando a Cultura e as Editoras Gaúchas para a FLIP em Paraty
Um dos pontos altos e mais inovadores anunciados na entrevista é a participação inédita da Feira do Livro de Porto Alegre no renomado Festival Literário de Paraty (FLIP). O propósito central dessa incursão interestadual é dar visibilidade e abrir novos mercados para as editoras independentes e para os autores do Rio Grande do Sul que buscam projeção no cenário nacional.
Ao ocupar os tradicionais casarões históricos de Paraty com a literatura gaúcha, a gestão atual demonstra um compromisso genuíno de descentralização e fomento, garantindo que a voz e a produção intelectual do estado ecoem muito além das fronteiras locais, consolidando parcerias e intercâmbios culturais duradouros.
O Futuro da Leitura: Conselhos para Autores Independentes e a Sociedade
Encerrando o diálogo enriquecedor, Roseni deixou mensagens profundas e direcionadas a diferentes públicos que compõem o ecossistema do livro:
Para os autores independentes: O incentivo é para que jamais abandonem a escrita, persistindo na produção literária apesar dos desafios inerentes ao mercado de publicações independentes.
Para as famílias e educadores: A recomendação é dar o exemplo prático dentro de casa e nas escolas, inserindo as crianças no universo da leitura por meio de visitas guiadas, contação de histórias e momentos lúdicos.
Para a comunidade em geral: O ato de presentear com livros é apontado como um dos gestos mais transformadores e revolucionários para o desenvolvimento intelectual da sociedade, independentemente do gênero escolhido.
A gestão de Roseni Siqueira Kohlmann inicia um ciclo inspirador, provando que a literatura sul-rio-grandense pulsa forte, unindo com maestria a solidez da tradição, a coragem da inovação e a força irrefutável da representatividade.







