A história da literatura brasileira é forjada, muitas vezes, por trajetórias que desafiam as estatísticas e a própria lógica social. Em um cenário onde as oportunidades são historicamente desiguais, o surgimento de um grande poeta e agitador cultural vindo das camadas mais desassistidas da população é sempre um evento a ser celebrado. Foi exatamente para celebrar um marco de meio século de carreira literária que o Canal Energicy, sob o comando perspicaz e acolhedor de Alberto Dal Molin Filho, recebeu o renomado escritor, poeta e editor Rossyr Berny. O encontro, gravado na Livraria Paisagem, no Shopping Bourbon Carlos Gomes em Porto Alegre, transcendeu a formalidade de uma entrevista para se tornar um testemunho visceral sobre a condição humana.
Neste artigo abrangente, vamos explorar detalhadamente cada fase da vida de Rossyr Berny narrada no vídeo. Desde a sua origem em uma família de dezoito irmãos na extrema pobreza da cidade de São Gabriel, no interior do Rio Grande do Sul, passando por suas lutas na juventude, a perda trágica de familiares, a inusitada amizade com Mário Quintana, até a consolidação de sua carreira como presidente do Fórum da Academia Rio-Grandense de Letras e proprietário da Editora Alcance. Prepare-se para uma imersão profunda em uma história onde a palavra escrita foi, literalmente, a única tábua de salvação contra a miséria e a desesperança, consolidando Rossyr Berny e a superação através da literatura.
O Peso de um Nome e as Raízes na Extrema Pobreza de São Gabriel
A gênese de Rossyr Berny é marcada por uma estatística brutal e dolorosa da mortalidade infantil no Brasil de meados do século passado. Membro de uma gigantesca família de 18 irmãos (sendo 11 mulheres e 7 homens), ele nasceu em uma vila periférica e paupérrima na cidade de São Gabriel, a 321 quilômetros da capital gaúcha. O contexto de sua chegada ao mundo é carregado de um misticismo religioso e de uma dor latente.
Antes do nascimento de Rossyr, sua mãe, Dona Maria Jovelina Berni de Oliveira, já havia dado à luz cinco meninas. Tragicamente, todas as cinco faleceram antes de completarem o primeiro ano de vida, vítimas das condições precárias de subsistência e da falta de recursos médicos da época, a despeito de todo o amor e cuidado que os pais dispendiam. Diante dessa tragédia repetida, uma vizinha aconselhou a mãe a fazer uma promessa divina: caso a próxima criança sobrevivesse por um ano e um dia, ela deveria receber o nome da origem da humanidade. Se fosse menina, Eva; se fosse menino, Adão.
O menino sobreviveu. E, cumprindo a promessa, sua mãe passou a chamá-lo de Adão. A desconfiança e o trauma das perdas anteriores eram tão profundos que o registro civil do menino só foi oficializado quando ele já estava com nove anos de idade, momento em que a família sentiu que a vida da criança estava definitivamente assegurada. Essa introdução dramática à existência forjou no jovem um senso de responsabilidade precoce. Sendo o filho homem mais velho entre os sobreviventes, ele compreendeu desde os primeiros anos que a sua vida não seria pautada pela leveza da infância, mas pela urgência da sobrevivência coletiva.
O Menino do Lixão: O Trabalho Árduo e o Refúgio nas Artes
A maturidade imposta pela pobreza fez com que, aos 12 anos de idade, Rossyr tomasse para si a responsabilidade de auxiliar no sustento daquela casa repleta de bocas a alimentar. Ele encontrou uma fonte de renda no lixão próximo à sua residência. Diariamente, ele recolhia sucatas — ferro, cobre, alumínio e pedaços de vidro — e enchia pesados sacos de estopa.
O trajeto até o ferro-velho, localizado a seis quadras de distância, era uma verdadeira via crucis. Rossyr relata, com emoção palpável, que até hoje carrega cicatrizes nas costas, marcas dos vidros quebrados que cortavam sua pele através da estopa enquanto ele carregava o peso excessivo. Contudo, aquele dinheiro escasso tinha um valor inestimável. Ele não apenas ajudava a comprar o pão de cada dia, como também financiava o seu refúgio emocional: o cinema dominical.
Enquanto sofria chacotas na escola devido às suas roupas remendadas (ainda que impecavelmente alvas e limpas pelo esforço da mãe) e às suas sandálias precárias, Rossyr encontrava nas matinês de cinema a nutrição para a sua alma de artista. Essa dualidade entre a crueza do trabalho braçal e a sublimação através da arte foi o terreno fértil onde a semente da poesia começou a germinar.
Compaixão Sem Julgamentos: O Cuidado com os Anjos da Noite
Uma das passagens mais extraordinárias e reveladoras do caráter de Rossyr Berny ocorreu quando ele tinha apenas 14 anos. Perto de sua casa moravam duas jovens, na faixa dos 20 anos, que exerciam a prostituição para sobreviver. Elas eram mães de crianças de colo. Longe de adotar qualquer postura de moralismo ou condenação social, o jovem Rossyr enxergava apenas duas vizinhas desamparadas pela falta de oportunidades educacionais e, acima de tudo, duas crianças inocentes que precisavam de cuidados durante a noite.
Eles estabeleceram um acordo não remunerado, pautado puramente na solidariedade. Durante a tarde, Rossyr atravessava o rio da cidade e entrava no mato para coletar lenha seca. Quando as mães precisavam sair para trabalhar à noite, ele assumia o fogão a lenha, preparava as mamadeiras e cuidava dos bebês. Para realizar essa tarefa caridosa, ele precisava fugir de sua própria casa, esgueirando-se pela porta dos fundos após os pais dormirem.
Essa rotina durou meses, até a noite em que seu pai, Ervandil Vieira de Oliveira, acordou de sobressalto. Ao ver o braço do filho tentando destrancar a porta por fora, o pai confundiu-o com um ladrão. Armado com um facão, Ervandil levantou a lâmina para golpear o “invasor”. Em um detalhe de puro lirismo poético real, a luz da lua refletiu na lâmina de aço, iluminando o rosto do menino, que teve apenas uma fração de segundo para gritar: “Pai, sou eu!”.
Ele levou uma surra memorável e foi proibido de retornar, mas o episódio cristalizou a imensa capacidade de empatia de Rossyr. Ele cuidou daquelas crianças com a mesma dedicação de um irmão mais velho, provando que o amor e a decência não habitam as convenções sociais, mas sim as ações genuínas do coração humano.
A Educação Como Única Herança: Do Internato ao Exército
A consciência de que a pobreza só poderia ser rompida através dos estudos era uma cartilha recitada diariamente por seus pais. Embora fossem praticamente analfabetos, eles repetiam um mantra que ecoaria por toda a vida de Rossyr: “Nós não temos herança para deixar a vocês, meus filhos. Mas a nossa recomendação é: estudem, estudem, estudem”.
Levando essa diretriz às últimas consequências, em 1970, Rossyr foi morar como aluno interno em uma escola agrícola. O aprendizado envolvia o manejo do campo, desde a identificação de raças bovinas até a classificação da ondulação da lã de ovelhas. Contudo, o ensino médio regular exigia que ele estudasse à noite no centro da cidade, a dez quilômetros de distância do internato.
A princípio, um professor oferecia carona, mas o privilégio durou apenas um mês. Decidido a não abandonar os livros, Rossyr passou a fazer o trajeto a pé. Como a aula terminava às 22h30, ele enfrentava a escuridão da estrada de terra de volta para o internato. Temendo os cães ferozes e arrepiado com as inúmeras cruzes fincadas na beira da estrada (que sinalizavam mortes violentas na região), o jovem estudante não apenas caminhava, mas corria desesperadamente por quilômetros todas as madrugadas, benzendo-se a cada cruz que ultrapassava.
Essa adversidade brutal gerou um fruto inesperado. Quando ingressou no Exército Brasileiro em 1971, o preparo físico adquirido naquelas corridas noturnas fez com que ele se tornasse, com absoluta facilidade, campeão de corrida nos 10.000 metros. É a prova cabal de que as dificuldades do passado constroem a resistência necessária para as vitórias do futuro. Posteriormente, esse mesmo vigor foi aplicado à sua formação intelectual, culminando em sua graduação em Jornalismo pela PUC-RS, especialização em Teoria da Literatura e graduação em Formação de Professores.
O Luto Transformado em Legado: As Perdas Inestimáveis
O caminho de Rossyr não estaria completo sem o enfrentamento de lutos profundos. A fatalidade atingiu o seio de sua família de forma devastadora. No dia 23 de abril de 1973, um dia após a Páscoa, sua irmã, que trabalhava como professora, foi brutalmente atropelada em frente à humilde escolinha rural onde lecionava, enquanto descia de um ônibus carregando doces para as crianças. A perda destroçou a família, mas a comunidade reconheceu o impacto da jovem professora, e a escola foi posteriormente rebatizada como Escola Municipal Professora Maria Carolina Berni de Oliveira.
Como se o destino testasse os limites da sanidade daquela família, algum tempo depois, o seu pai, o honrado Ervandil, também perdeu a vida no trânsito. Ele conduzia a sua carroça para buscar farelo para os animais da família quando foi esmagado por um trator desgovernado.
Para muitas pessoas, tragédias em sequência dessa magnitude gerariam uma revolta incurável contra a vida e contra o mundo. Para Rossyr, no entanto, essas dores foram alquimicamente transformadas em amor. Ele converteu o luto em poesia, e a saudade em uma determinação inabalável de honrar o nome daqueles que partiram precocemente. A dor afinou a sua sensibilidade literária, ensinando-lhe que a literatura não é apenas entretenimento, mas uma ferramenta vital de sobrevivência psicológica.
O Encontro Histórico com Mário Quintana: O Início de 50 Anos de Poesia
O marco zero dos 50 anos de literatura de Rossyr Berny nos remete ao ano de 1976. Naquela época, aos 21 anos, recém-chegado a Porto Alegre para estudar jornalismo, ele já havia acumulado 150 poemas datilografados. Seu professor no curso pré-vestibular Mauá, Sérgio Gonzaga, reconheceu o talento bruto do aluno, que declamava seus versos para auditórios lotados de estudantes. O professor selecionou 90 daqueles poemas e deu uma ordem audaciosa: “Vai publicar o teu livro, mas vai no Correio do Povo e pede para o Mário Quintana escrever o prefácio”.
Abordar um monumento da literatura nacional como Mário Quintana exigia audácia. Sem hesitar, Rossyr encontrou o mestre na redação do jornal e entregou os originais. Quintana, com sua sinceridade característica, avisou que só escreveria se realmente gostasse da obra, pedindo que o jovem retornasse na quarta-feira seguinte.
O que se seguiu foi um teste de paciência. Rossyr retornou por três quartas-feiras consecutivas, e o texto ainda não estava pronto. Finalmente, na quarta visita, Quintana entregou-lhe um envelope. Ao abrir e ler o prefácio em uma folha de ofício, Rossyr emocionou-se profundamente. Aquele gesto generoso de Quintana chancelou o lançamento de O Homem Autômato, o primeiro dos 23 livros que Berny viria a publicar.
Mais do que um texto, aquele episódio inaugurou uma amizade sincera. Quintana permitia que o jovem Rossyr o visitasse no lendário Hotel Majestic, tornando-se uma espécie de padrinho literário. Dal Molin destaca a grandiosidade desse reconhecimento: anos depois, o próprio Mário Quintana entrou em uma fila de autógrafos de Rossyr, apenas para reverenciar o pupilo, afirmando em alto e bom som que ele havia se tornado “um grande poeta”.
A Visão Empreendedora: A Criação da Editora Alcance
A carreira literária, no Brasil, raramente paga as contas apenas com a venda de originais, especialmente quando o autor é um pai de família que precisa sustentar e custear a educação universitária dos filhos após uma separação conjugal. Rossyr tornou-se um caixeiro-viajante da própria obra, percorrendo o Rio Grande do Sul e o Brasil para vender seus livros de mão em mão.
Em 1985, durante uma dessas viagens, um colega e amigo do Correio do Povo, Leandro Oviedo, observou a imensa facilidade de comunicação e venda de Rossyr e fez a provocação que mudaria tudo: “Se tu vendes tão bem os teus livros e gastas tanto com gráficas de terceiros, por que não abres a tua própria editora para publicar a ti mesmo e aos teus amigos?”.
Assim nasceu a Editora Alcance, que hoje, 43 anos depois, é uma das mais longevas e respeitadas de Porto Alegre. Com mais de 2.000 títulos publicados, a editora sobreviveu às drásticas transformações do mercado. Quando a revolução digital ameaçou as gráficas tradicionais e fez a tiragem impressa despencar, Rossyr não recuou. Ele levou sua equipe para fazer cursos em universidades e adaptou seu modelo de negócios, passando a realizar pequenas tiragens (de 100 a 500 exemplares) e edições digitais, democratizando o acesso de centenas de novos autores que, de outra forma, jamais veriam suas obras publicadas.
Inovação, Liderança e “Matemática do Amor”
O vigor literário de Rossyr Berny é inesgotável. Longe de estacionar no passado, ele continua inovando. Seu vigésimo terceiro livro, Arco-íris Noturno, é uma obra de inclusão monumental. Cada um dos 100 poemas do livro vem acompanhado de um QR Code que direciona o leitor para um áudio da declamação, fotos e vídeos. Essa sensibilidade permite que deficientes visuais não fiquem alheios à sua poesia, tornando este livro o seu maior sucesso comercial da atualidade. Outro feito literário recente é a obra Volta ao Mundo em 500 Poemas, onde ele poetiza suas viagens por todos os continentes do globo.
Além de sua vasta produção pessoal, Rossyr exerce um papel de liderança colossal no cenário cultural. Como idealizador e presidente do Fórum Rio-Grandense das Academias de Letras, ele coordena esforços de 60 academias espalhadas pelo estado, além de incentivar a fundação de novas filiais no interior, como ocorreu na cidade de Farroupilha e em sua terra natal, São Gabriel (a autodenominada “Atenas Rio-Grandense”). Ele também é um visionário internacional: há 46 anos, antes mesmo da criação do bloco econômico do Mercosul, ele cofundou a Casa do Poeta Latino-Americano junto com colegas uruguaios e publicou a antologia “Mercopoema”, unindo a produção poética da região.
Para coroar a sua presença no canal de Alberto Dal Molin Filho, Rossyr declamou de forma arrebatadora o seu poema Matemática do Amor. Ao buscar uma métrica inédita para descrever o sentimento por sua musa inspiradora, ele uniu a lógica fria da matemática ao calor da paixão, calculando o amor em “3.600 segundos por hora, 86.400 vezes por dia”. O poema é uma obra-prima de criatividade que desdobra o sentimento humano sob as lentes da geometria e da aritmética, provando que a poesia não possui fronteiras temáticas.
O Reconhecimento e as Mães de Leite
No momento de reciprocidade e reverência mútua, Alberto Dal Molin Filho presenteia Rossyr com o seu livro Olha como me senti quando você partiu. Dal Molin explica a premissa genial da obra: a história de um paciente terminal que, para poupar sua família de sua agonia, escolhe confessar seus medos e segredos a uma planta. A narrativa, escrita sob a perspectiva da própria planta como protagonista, comove profundamente o poeta gabrielense, que aplaude a singularidade da invenção literária de Dal Molin.
O desfecho do vídeo é marcado por uma declamação final que arranca lágrimas. Rossyr narra, em versos, a história da extirpação dos seios de sua mãe devido ao câncer e as suas peregrinações em busca de alimento. Ele enaltece as suas sete “mães de leite” — mulheres negras, vizinhas pobres, conhecidas ou anônimas — que compartilharam o leite de seus próprios filhos para mantê-lo vivo. O poema é uma homenagem póstuma e um reconhecimento eterno da dívida de gratidão que ele carrega.
Conclusão: A Poesia Como Arma Contra a Guerra
Ao concluir a sua brilhante exposição no Canal Energicy, Rossyr Berny deixa uma reflexão necessária para a sociedade contemporânea. Em um mundo fustigado pela guerra, pela violência desmedida e pela ganância de líderes que subjugam nações, a literatura emerge como o último bastião de resistência da alma humana. A poesia e a arte, nas palavras de Rossyr, são os exatos opostos da guerra. Onde as armas buscam destruir o indivíduo, o livro busca eternizá-lo.
A documentação da vida deste ícone da cultura gaúcha — que em breve se transformará em um documentário de 50 minutos produzido pela Pampas Produções Artísticas — é a celebração do espírito invencível. A história de Rossyr prova que não importam as cicatrizes deixadas pelos sacos do lixão, nem as longas estradas escuras ou as perdas dilacerantes da família. Quando um ser humano decide, como orientaram os seus pais, abraçar o conhecimento e a compaixão, não há destino fatalista que não possa ser reescrito através da arte. Rossyr Berny e a superação através da literatura não é apenas o título de sua biografia, mas uma carta de amor à capacidade humana de sobreviver, amar e versar.







