A música regional gaúcha possui uma capacidade singular de traduzir a alma, a paisagem e os sentimentos mais profundos de seu povo. No entanto, quando o talento musical se alia a um coração imensamente generoso, o artista transcende os palcos e se torna um verdadeiro instrumento de transformação social. É essa a belíssima história revelada no mais recente episódio do Canal Energicy, no qual o idealizador e apresentador Alberto Dal Molin Filho recebe o músico, cantor, compositor e empreendedor Paulo Costa. A entrevista, gravada na Livraria Paisagem, no Shopping Bourbon Carlos Gomes em Porto Alegre, é um mergulho emocionante na vida de um homem que transformou a sua infância pobre no interior do estado em uma jornada de consagração artística e altruísmo.
Neste artigo extenso e ricamente detalhado, vamos desbravar todos os capítulos abordados nessa conversa memorável. Analisaremos as origens humildes de Paulo, o descobrimento precoce de seu dom musical (apoiado de forma incondicional por sua família), a multiplicidade de instrumentos que ele domina e o processo misterioso da composição. Além disso, destacaremos o seu impressionante tino empreendedor na gastronomia e, fundamentalmente, como a vida de Paulo Costa e a força da solidariedade se entrelaçam em campanhas filantrópicas que salvam vidas, arrecadam recursos milionários e devolvem a esperança a famílias desamparadas, unindo fãs não só no Rio Grande do Sul, mas em diversos cantos do mundo.
As Raízes do Talento: O Dom Divino e o Incentivo Familiar
A jornada de Paulo Costa começou de maneira modesta, longe dos holofotes. Nascido na localidade de Linha Salvação, próximo a Encantado (hoje município de Relvado), no interior do Rio Grande do Sul, ele se mudou ainda muito jovem (com cerca de 2 anos) para São Miguel do Oeste, em Santa Catarina. Foi lá, por volta dos 5 a 7 anos de idade, que o seu dom começou a aflorar.
Ele atribui o seu primeiro empurrão musical à sua irmã mais velha, que era professora do ensino primário. Percebendo a musicalidade inata do irmão caçula em uma família numerosa onde a cantoria já era uma tradição noturna, ela o levava para a escola para cantar a cappella (sem acompanhamento instrumental) para as crianças. Paulo relata, com carinho, que o ato de ver outras crianças aplaudindo e admirando a sua voz serviu como o principal combustível para que ele desejasse cantar cada vez mais. É a prova clara de que o incentivo familiar, por mais simples que seja, possui um poder formidável de moldar destinos.
Contudo, Paulo faz questão de frisar uma crença profunda: a música, para ele, não foi apenas aprendida, ela nasceu com ele. Ele enxerga a sua vocação como um dom estritamente divino. O ambiente e os professores ajudaram a lapidar, mas a semente melódica já estava plantada por Deus em seu coração.
O Primeiro Instrumento: A Ousadia e o Amor de um Pai
O talento inato precisava de uma ferramenta para se materializar. E a história de como Paulo Costa conseguiu o seu primeiro instrumento musical é de arrancar lágrimas.
Em 1980, quando Paulo tinha cerca de 10 anos e a família já havia retornado ao Rio Grande do Sul (morando em Carlos Barbosa, na Serra Gaúcha), o seu falecido pai, Osvaldo dos Santos Costa, teve um pressentimento ou, quem sabe, uma visão sobre o futuro do filho. Mesmo sendo um homem muito pobre e, segundo Paulo, completamente “desafinado” para a cantoria, o senhor Osvaldo tomou uma atitude corajosa.
Ele chegou em casa uma noite acompanhado de um amigo, Juarez Dalcin, trazendo uma “gaita” (acordeon) Todeschini de 80 baixos. Paulo relata que a família não tinha dinheiro algum para aquele “luxo”. O pai comprou o instrumento totalmente fiado, pedindo dinheiro emprestado aos cunhados — os quais, posteriormente, ao verem a dedicação do menino e a nobreza do pai, recusaram-se a cobrar a dívida.
O amigo Juarez ensinou-lhe algumas notas básicas e, impressionantemente, em questão de dois a três dias, Paulo já estava tirando de ouvido e criando sua primeira “valsinha”. Esse foi o estopim para uma carreira marcada por um autodidatismo feroz e pela vontade indomável de aprender.
A Multiplicidade Instrumental e a Força da Vontade
Um dos traços mais marcantes da carreira de Paulo Costa é o seu caráter de músico multi-instrumentista. A gaita foi apenas o começo. Ele sentiu a necessidade de aprender a tocar violão e, para isso, não mediu esforços físicos. Como a sua família morava na zona rural, ele caminhava quatro quilômetros com o violão nas costas todos os sábados até o centro da cidade para ter aulas com a sua primeira professora, Marizete Bedim.
Ele passou por três grandes professores de violão. O segundo foi Ademir Mesacasa (proprietário da Banda Alma Nova) e o terceiro, um renomado violonista que passou a dar-lhe aulas em domicílio: Marcelo Caminha, que hoje é um dos maiores expoentes da música gaúcha.
A versatilidade de Paulo era ditada pelas necessidades práticas dos grupos musicais que ele integrava. Ao entrar em um coral infantil (os Canarinhos de Torino), os professores precisavam de alguém nos teclados; ele aprendeu a tocar teclado. Anos depois, ao receber o convite para integrar a importante Banda Alma Nova (focada em bailes), impuseram-lhe uma condição severa: ele só entraria se aprendesse a tocar trompete. Sem nunca ter segurado um instrumento de sopro, ele aceitou o desafio e dominou o trompete, estendendo o aprendizado também para o contrabaixo. Como Dal Molin observa habilmente durante a conversa, o ser humano precisa de desafios concretos para superar os seus próprios limites.
O Mistério da Composição e a Inspiração Divina
A transição de músico acompanhante para cantor e compositor ocorreu de forma natural, guiada pela sensibilidade de Paulo. Ele relembra que a sua primeira composição nasceu de um desilusão amorosa enquanto tocava em bandas de baile.
A mecânica de sua composição é descrita por ele próprio como algo “inexplicável”. A poesia e as rimas brotam na mente de uma maneira quase transcendental. Uma simples frase dita por alguém no cotidiano — como “O tempo está para chuva” — é o suficiente para que a sua mente dispare em rimas e crie uma história completa.
A parte melódica é ainda mais intrigante. Paulo recebe dezenas de letras de letristas de todo o estado. Ao pegar um poema, ele relata que tenta musicá-lo no violão. Algumas vezes, as tentativas iniciais falham, mas de repente, uma melodia encaixa perfeitamente, como se ela já estivesse ali, pronta, apenas esperando para ser “descoberta”. Alberto Dal Molin Filho corrobora essa visão mística da arte, relatando como, durante uma caminhada na praia, um encontro casual com um jovem lhe rendeu a estrutura completa (em 30 capítulos) de um de seus mais premiados livros. A arte, seja na literatura ou na música, frequentemente flui por canais que a lógica comum não alcança.
A Virada de Chave: O Encontro Com Nico Fagundes
A guinada profissional que colocou Paulo Costa no mapa da música nativista ocorreu de forma inesperada em 1993, durante uma gravação do clássico programa de televisão “Galpão Crioulo”, realizada no ginásio da empresa Tramontina, em Carlos Barbosa.
Até aquele momento, Paulo sobrevivia tocando gêneros diversos em bandas de baile. A Prefeitura da cidade, reconhecendo o seu talento vocal, convidou-o para representar Carlos Barbosa cantando uma música gaúcha no programa. O detalhe cômico e revelador é que Paulo não possuía absolutamente nenhuma “pilcha” (a indumentária tradicional do gaúcho). Ele teve que pedir bombacha, bota, rastra, lenço e chapéu emprestados para poder subir ao palco.
Ele interpretou a música Potro Sem Dono. O seu desempenho foi tão magistral que atraiu a atenção imediata do apresentador, o lendário Antônio Augusto Fagundes (Nico Fagundes). Nico, conhecido por sua erudição e profundo conhecimento do folclore do Rio Grande do Sul, aproximou-se do jovem e profetizou: “Paulo, tu és um talento. Tu tens que ir para Porto Alegre, procurar o meu sobrinho, o Neto Fagundes, e o Luiz Carlos Borges. Tu tens que cantar música gaúcha para o Rio Grande”.
Paulo, com 23 anos, acreditou naquelas palavras. Ele arrumou as malas, mudou-se para a capital e procurou os contatos indicados. Neto Fagundes e Luiz Carlos Borges o apadrinharam, orientando os seus primeiros passos. Foi através dessa conexão que, entre 1994 e 1995, ele gravou o seu primeiro CD nativista, Coração Cigano. Desse álbum despontou o seu primeiro estrondoso sucesso: Milonga de Capataz (letra de Pedro Júnior da Fontoura e melodia do próprio Paulo). Essa música romântica e telúrica o consagrou, tornando-se um hino eterno em todos os seus shows e bailes.
A Adaptação ao Mercado: Do Vinil ao Streaming Global
A carreira de Paulo Costa atravessa gerações e tecnologias. Ele relata ter gravado três discos de vinil com as bandas de baile no início da carreira e, posteriormente, 18 CDs físicos focado na música regional. Ao todo, a sua discografia conta com mais de 300 músicas gravadas.
Com o advento da internet e a morte lenta do formato físico (como os CDs), muitos artistas sucumbiram. Paulo, contudo, adaptou-se com maestria à nova realidade das plataformas digitais. Ele explica que a estratégia atual consiste em gravar “singles” (uma música por vez) ou “EPs” (grupos de três músicas). A música é enviada estrategicamente para as emissoras de rádio — que ele considera, com muita sabedoria, ainda fundamentais para a carreira de qualquer artista — e, em seguida, lançada em plataformas como Spotify, Deezer e YouTube, muitas vezes acompanhada de videoclipes bem produzidos.
O resultado dessa pulverização digital é o rompimento de fronteiras físicas. Como ele também atua voluntariamente há mais de 20 anos como apresentador de um programa focado em mensagens cristãs na Rádio Aliança, ele recebe o retorno online de ouvintes sintonizados na Dinamarca, na Turquia, nos Estados Unidos e em inúmeros outros países. A música gaúcha e as boas mensagens de Paulo Costa abraçam o mundo.
O Empreendedorismo na Gastronomia: A Rede “Nostro Sapore”
Um aspecto pouco conhecido do grande público, mas fundamental na vida de Paulo Costa, é a sua inteligência e persistência no mundo dos negócios. Ao final da década de 1990, mesmo já gravando discos, o retorno financeiro exclusivo da música era instável. Buscando estabilidade financeira sem abandonar o violão, ele e seu cunhado arriscaram-se na área de restaurantes em Porto Alegre.
Iniciando com a compra de 20% de uma pequena operação (o restaurante Florença), que ele pagou apenas com a sua força de trabalho, Paulo foi expandindo os seus negócios. Dessa semente nasceram outros empreendimentos, até a fundação, há cerca de 20 anos, do restaurante Nostro Sapore, uma referência no bairro São Geraldo, em Porto Alegre. Hoje, a família opera também uma casa de churrasco na Serra Gaúcha (em Bento Gonçalves) e administra outra unidade gerida por sua esposa na capital.
Ele destaca que essa vida paralela de empresário gastronômico foi o que financiou os seus álbuns e deu paz financeira à sua família. Os restaurantes hoje não são apenas um ganha-pão, mas um ponto de encontro onde fãs de todo o estado vão almoçar apenas para lhe dar um abraço, tirar fotos e ver os discos de vinil e CDs emoldurados na parede do estabelecimento.
A Solidariedade Como Propósito de Vida: Salvando Vidas na Prática
O grande clímax da entrevista, contudo, não reside nas cifras de discos vendidos ou na lotação de seus shows. O que faz de Paulo Costa um convidado indispensável para o projeto de Dal Molin é o tema central deste texto: Paulo Costa e a força da solidariedade.
O cantor não utiliza a sua fama apenas para assinar autógrafos. Ele converteu o seu capital social e a sua credibilidade em uma verdadeira máquina de fazer o bem. Ele revela que, influenciado pela educação familiar e pelo período de um ano em que estudou em um seminário para ser padre, ajudar o próximo tornou-se um vício saudável. “Se eu ficar uma semana sem que ninguém me peça ajuda para uma campanha, eu fico para baixo, eu fico triste”, relata ele emocionado.
A credibilidade de Paulo perante o seu público é colossal. Durante a pandemia, ele liderou um esforço hercúleo para salvar a vida de uma menina da cidade de Teutônia, chamada Lívia, que sofria de AME (Atrofia Muscular Espinhal). O tratamento, realizado nos Estados Unidos, custava cifras absurdas, acima de R$ 12 milhões. Paulo utilizou a sua rede de contatos, convocou 15 artistas e realizou lives de arrecadação. O esforço deu certo. A menina recebeu o tratamento e está viva.
Essas correntes do bem se multiplicaram. Em outra ocasião, ele arrecadou mais de R$ 400.000,00 (quatrocentos mil reais) em uma única live para ajudar outro menino, feito que lhe rendeu o prêmio de “Melhor Live do Ano” pela RBS. Ele também é padrinho da Cavalgada do Bem de Sapucaia do Sul (CTG Herança Farroupilha). Nessas cavalgadas de fim de ano, os tradicionalistas arrecadam toneladas de alimentos que Paulo, pessoalmente, ajuda a triar em seu restaurante e entrega para comunidades vulneráveis nas Ilhas do Guaíba (Ilha da Pintada, Ilha do Pavão) e em Eldorado do Sul. Mais recentemente, a sua liderança também foi crucial na arrecadação de carretas de suprimentos para as vítimas das devastadoras enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul.
Para ilustrar a confiança irrestrita que as pessoas depositam nele, Paulo conta o caso de uma campanha onde precisava arrecadar pequenas quantias. Ele assustou-se ao ver um depósito via Pix no valor de R$ 1.500,00. Achando que fosse um erro de digitação, ligou para o doador, residente em Brasília. O doador explicou que não era erro: a sua neta havia acabado de nascer com perfeita saúde, e doar aquele alto valor para a campanha de Paulo era a sua forma de agradecer a Deus pela bênção recebida. Essa é a magnitude do respeito que Paulo Costa conquistou.
O Presente Literário e o Perigo da Falta de Limites
No encerramento dessa jornada verbal, Alberto Dal Molin Filho mantém a tradição do seu canal e oferece um presente imensamente simbólico ao seu entrevistado: o livro Perigos da Educação Permissiva.
Dal Molin conta a Paulo a essência de sua obra (como feito com o casal de maratonistas do episódio anterior). A narrativa expõe a trajetória de um jovem guerreiro, atleta e solidário (alguém com uma essência muito próxima à do próprio Paulo), que cria ONGs e luta contra a fome na África. No entanto, ao ascender ao poder corporativo em Nova York e se tornar pai, esse homem comete o erro trágico de criar o filho sem nenhuma regra, sem frustrações e proibindo o uso da palavra “não”. O livro expõe, com base na psicologia e na experiência de vida, a ruína que a ausência de limites morais e disciplina pode causar a uma vida.
O cantor, intrigado e fascinado pela premissa, promete ler a obra com atenção, compreendendo que o sucesso de um ser humano (seja ele um músico, um empresário ou um jovem) depende intrinsecamente das regras, dos desafios superados e das “frustrações” que fortalecem o caráter — lições que o próprio Paulo absorveu ao carregar o violão nas costas por quilômetros na juventude e ao desbravar o mercado competitivo de Porto Alegre.
Conclusão: O Acorde Final de Uma Vida Plena
A entrevista encerra-se com um dos momentos mais arrepiantes que um canal de comunicação no YouTube pode oferecer: Paulo Costa saca o seu violão, repousa-o no colo e, ali mesmo, entre as prateleiras da Livraria Paisagem, entoa a sua clássica e eterna Milonga de Capataz. “A paisagem está mais quieta / o silêncio mais profundo…”
A voz grave e afinadíssima, acompanhada pelo dedilhar magistral nas cordas de nylon, preenche o ambiente. Ao terminar a canção, a emoção de Alberto Dal Molin Filho é palpável. Ele reverencia o artista, a sua história e, especialmente, o coração imenso que bate no peito desse gaúcho de linha Salvação.
Ao finalizar a análise deste encontro, torna-se evidente que a música, embora seja a ferramenta primária de trabalho de Paulo Costa, é apenas o meio de transporte que ele utiliza para chegar ao seu destino final: a caridade. A lição imortal que extraímos dessa entrevista está na frase que o próprio cantor guarda como mantra de vida: “Quem começa a fazer o bem, não para jamais”. Que a arte nativista continue ganhando o mundo através da voz deste ídolo, e que as suas campanhas de solidariedade continuem a ecoar, mostrando que a verdadeira fama só encontra o seu propósito quando se coloca à serviço do outro.







