Dra. Gilmara Pandolfo Da Medicina às Maiores Maratonas do Mundo

Entrevista Gilmara Pandolfo | Alberto Dalmolin

Em um mundo onde a rotina acelerada frequentemente nos obriga a escolher entre o sucesso profissional, a saúde física e a dedicação à família, encontrar histórias de pessoas que conseguem equilibrar todos esses pilares com maestria é algo verdadeiramente inspirador. Recentemente, o canal Dalmolin Energice, que tem a nobre missão de abrir caminhos e motivar jovens através de trajetórias de sucesso, recebeu uma convidada que personifica a palavra superação: a Dra. Gilmara Pandolfo Zabote.

Médica cirurgiã, especialista em coloproctologia, professora universitária, pesquisadora e maratonista de elite em busca da cobiçada Mandala (a medalha concedida àqueles que completam as seis maiores maratonas do mundo), a Dra. Gilmara compartilhou detalhes fascinantes sobre sua vida.

Neste artigo completo, vamos mergulhar profundamente na trajetória desta profissional extraordinária. Se você busca motivação para iniciar no esporte, dicas para conciliar uma carreira exigente com a maternidade, ou simplesmente quer entender a mentalidade de alguém focado em alta performance, prepare-se para uma leitura transformadora.

Uma Vocação Precoce: O Despertar para a Medicina e o Esporte

A história de grandes realizações geralmente começa com um sonho cultivado na infância. Para a Dra. Gilmara, a clareza sobre o seu futuro veio surpreendentemente cedo. Desde os sete anos de idade, ela já declarava com convicção: “Quero ser médica”. O curioso é que não havia nenhum médico na família para servir de espelho, o que reforça a ideia de uma vocação inata, um chamado verdadeiro para a área da saúde.

Porém, a medicina não era a sua única paixão. Durante sua juventude, estudando no colégio La Salle, Gilmara desenvolveu um amor profundo pelo voleibol. Ela não apenas jogava por lazer, mas participava ativamente de competições, nutrindo o sonho paralelo de se tornar uma jogadora profissional.

Como a vida exige escolhas, chegou o momento do vestibular. Após não ingressar na primeira tentativa, um conselho de sua mãe foi determinante: era preciso decidir entre a quadra e o jaleco. Movida por sua paixão maior, ela escolheu a medicina. Essa decisão precoce de abdicar de um sonho em prol de outro maior moldou a resiliência que ela usaria mais tarde, tanto nos centros cirúrgicos quanto nas pistas de corrida.

Brilhantismo na Faculdade: A Paixão pela Anatomia

O ingresso no curso de Medicina é frequentemente acompanhado de um choque de realidade. Os primeiros semestres são repletos de disciplinas teóricas e laboratoriais, como bioquímica e sociologia, que, embora fundamentais, distanciam o estudante da prática médica com pacientes. Para aplacar essa ansiedade natural, Gilmara encontrou refúgio na Anatomia.

A disciplina era ministrada por três professores, sendo um deles o temido Dr. José Pinto Furtado, conhecido pelo seu extremo rigor e por ser o “ralador” nas provas práticas. Ao ser sorteada para ser avaliada por ele, Gilmara não se intimidou. Moradora de Canoas e passando os três turnos na faculdade, ela usava cada tempo livre no laboratório de anatomia, dissecando cadáveres e estudando minuciosamente cada nervo e vaso sanguíneo.

O resultado de tanta dedicação? Um surpreendente 9 na primeira prova, uma nota considerada um mito entre os alunos da época (já que “10 é para Deus e 9 é para o professor”). Esse brilhantismo chamou a atenção do professor Furtado, que a convidou para acompanhar cirurgias oncológicas no Hospital Santa Rita ainda no primeiro ano da faculdade. Logo, ela já estava apresentando trabalhos complexos em congressos da AMRIGS (Associação Médica do Rio Grande do Sul), pavimentando seu caminho para a cirurgia.

O Desafio da Cirurgia e a Escolha pela Coloproctologia

Formar-se em medicina com apenas 24 anos é um feito notável, mas que trouxe desafios peculiares. Com um rosto muito jovem e inserida em um ambiente cirúrgico que, há quase três décadas, ainda carregava fortes preconceitos contra mulheres, a Dra. Gilmara precisou provar sua capacidade diariamente.

Muitos pacientes ficavam apreensivos antes das operações, duvidando que uma médica tão jovem pudesse conduzir procedimentos complexos. Contudo, a competência técnica e a firmeza de propósito rapidamente derrubavam essas barreiras.

A jornada de especialização foi longa e árdua:

  1. 6 anos de graduação em Medicina (PUC-RS).

  2. 3 anos de Residência em Cirurgia Geral, lidando com plantões exaustivos e alta carga horária.

  3. 2 anos de Residência em Coloproctologia, onde atuou como residente única, assumindo enorme responsabilidade.

A escolha pela coloproctologia surgiu durante um estágio de férias. Apaixonada por cirurgias de grande porte, especialmente cirurgias abdominais e de intestino, ela encontrou nessa especialidade a sua verdadeira vocação dentro do vasto mundo cirúrgico. Com os certificados do MEC em mãos, ela ainda fez questão de prestar as rigorosas provas de título da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, demonstrando seu compromisso inabalável com a excelência ética e técnica.

A Descoberta da Corrida: Um Refúgio em Meio aos Plantões

Durante os três intensos anos da residência em cirurgia geral, a atividade física ficou em segundo plano. Foi apenas ao entrar na especialização de coloproctologia, que possuía horários ligeiramente mais previsíveis (até as 19h), que o esporte voltou à sua vida.

No entanto, o amado voleibol já não era viável. O esporte coletivo exigia horários fixos e parceiros, algo incompatível com a vida de uma médica que andava acompanhada de um “bip” (pager) e precisava retornar ao hospital a qualquer momento para emergências. A solução? A corrida de rua.

A corrida oferecia a flexibilidade necessária. Era solitária e podia ser interrompida instantaneamente caso o dever chamasse. Como o tempo era escasso, a Dra. Gilmara corria à noite, enfrentando o rigoroso inverno gaúcho. Para garantir sua segurança e proximidade com o trabalho, ela adotou uma estratégia criativa: corria ao redor do Shopping Iguatemi. Se o bip tocasse, o hospital estava a poucos minutos de distância.

Hoje, com uma agenda clínica lotadíssima, a alternativa encontrada para manter o volume de treinos é impressionante: ela acorda todos os dias às 4h15 da manhã. Essa disciplina férrea é o que separa os sonhadores dos realizadores.

Maternidade de Alta Performance: O Equilíbrio e a Amamentação

Mesmo acumulando sete empregos diferentes logo após a residência, a Dra. Gilmara não abriu mão do sonho da maternidade. E, como profissional de saúde, ela compreendia profundamente a importância vital da amamentação para a imunidade da criança, prevenção de doenças e fortalecimento dos laços afetivos.

Para conciliar a rotina de plantonista com o aleitamento materno, ela aplicou muito estudo e estratégia. Inspirada pelo livro “A Encantadora de Bebês” (da enfermeira Tracy Hogg), ela implementou um rigoroso esquema de ordenha.

  • O Banco de Leite Particular: Durante os plantões no hospital, ela ia ao lactário, ordenhava o leite materno, armazenava em caixas térmicas e levava para casa.

  • O Segredo da Mamadeira: Para evitar que o bebê sofresse confusão de bicos ou preferisse a facilidade da mamadeira artificial (abandonando o peito materno, onde a sucção exige mais esforço), ela investiu em uma mamadeira especial com válvula reguladora de fluxo. Assim, a babá podia alimentar a criança simulando o esforço da amamentação natural.

Com essa dedicação, ela conseguiu manter o aleitamento exclusivo até o sexto mês e continuou amamentando seus dois filhos até que completassem um ano de idade, superando todos os obstáculos logísticos de sua profissão.

Pesquisa e Docência: O Legado na Universidade

Como se não bastasse atuar brilhantemente em clínicas e hospitais — fazendo parte, inclusive, do prestigiado corpo clínico do Hospital Moinhos de Vento —, a Dra. Gilmara também tem um forte compromisso com a ciência e a educação.

Após o nascimento dos filhos, ela concluiu o Mestrado e o Doutorado. Atualmente, atua como professora de Medicina na Universidade Feevale, lecionando Coloproctologia para alunos do oitavo semestre. Além disso, é pesquisadora ativa do GEDIB (Organização Brasileira de Doença de Crohn e Colite), orientando e incentivando seus alunos não apenas a praticarem uma boa medicina, mas a produzirem artigos científicos e compartilharem conhecimento com o mundo.

Rumo à Mandala: O Sonho das World Marathon Majors

A evolução na corrida foi natural, mas exigiu ajustes. No início, ela corria 10 km todos os dias. Logo percebeu que seu rendimento estagnou. Faltava método. Ao decidir buscar algo maior, passou a contar com um treinador especializado, que introduziu planilhas, treinos de tiro, longões de fim de semana e reforço muscular.

O objetivo tornou-se ousado: conquistar a Mandala das Six Star Finishers, medalha cobiçada por maratonistas que completam as seis maiores provas do mundo (Boston, Chicago, Nova York, Londres, Berlim e Tóquio).

Sua primeira experiência internacional foi a Maratona da Disney, em 2018. Recentemente, a dedicação atingiu um novo patamar:

  • Ela buscou e conquistou o rigorosíssimo índice para a Maratona de Boston (a mais exclusiva do circuito, que não possui sorteio amplo e exige tempos de corte severos), correndo a prova em abril deste ano.

  • Com a sobra de rendimento (o famoso pace baixo), obteve índice e foi aprovada para a Maratona de Chicago (agendada para outubro).

  • Atualmente, aguarda o cobiçado sorteio para correr em Londres no ano que vem.

Além das pistas de asfalto, a doutora também desafia a natureza. Na temida prova TTT (Travessia Torres-Tramandaí), correr 42 km na areia da praia, enfrentando ventos, desníveis e calor intenso, não a impediu de brilhar. Ela já obteve o 1º lugar em sua categoria, o 5º lugar geral e, mais recentemente, alcançou um espetacular 3º lugar geral.

Dicas de Ouro de uma Médica Maratonista

Para quem assiste a essas conquistas e se pergunta “como posso começar?”, a Dra. Gilmara deixa conselhos preciosos, unindo sua expertise médica com sua vivência atlética:

  1. Faça um Check-up Completo: Antes de buscar longas distâncias, vá a um cardiologista. Realize exames como teste de esteira (ergoespirometria) e angiotomografia. A saúde do coração vem em primeiro lugar.

  2. Busque Orientação Profissional: Não cometa o erro de correr a mesma distância todos os dias. Um profissional de educação física montará uma planilha adequada, promovendo evolução de forma gradual e segura.

  3. Não Esqueça o Reforço Muscular: Apenas correr não basta. O fortalecimento muscular (musculação/funcional) é o que blinda as articulações e evita lesões, especialmente em modalidades de alto impacto.

  4. Ouça o Seu Corpo: A dor é um sinal de alerta. Saber o momento de dar “um passo para trás”, descansar e se recuperar é fundamental para ter longevidade no esporte. A recuperação (como o uso de botas de compressão, gelo e off na semana pós-prova) faz parte do treino.

  5. O Primeiro Passo é Querer: “Todos me dizem que acham bonito correr. O mais importante é querer, em primeiro lugar, e achar um tempo na sua vida para isso”.

Conclusão: O Poder da Disciplina e do Propósito

A entrevista concedida ao canal Dalmolin Energice nos mostra que o tempo é uma questão de prioridade. A Dra. Gilmara Pandolfo Zabote não tem mais do que 24 horas em seu dia, mas utiliza cada minuto movida por propósito e disciplina férrea.

Seja estudando anatomia incansavelmente nos corredores da faculdade, enfrentando o machismo estrutural na cirurgia, acordando antes do nascer do sol para correr dezenas de quilômetros, ou elaborando estratégias complexas para amamentar seus filhos em meio a plantões médicos, ela nos prova que não existem desculpas válidas para quem realmente deseja chegar longe.

Como o apresentador bem pontuou ao presenteá-la com o livro “Perigos da Educação Permissiva”, a vida cobra resiliência. A alta performance não aceita a permissividade do conforto constante. Requer suor, renúncias e foco. Que a trajetória desta médica, professora e superatleta sirva de combustível para que você calce seus tênis — físicos ou metafóricos — e comece hoje mesmo a correr atrás da sua própria grandeza.

Gostou de conhecer a história da Dra. Gilmara? Compartilhe este artigo com aquele amigo que precisa de um empurrãozinho para começar a correr, ou com aquela colega de trabalho que busca inspiração para conciliar a carreira e a vida pessoal. O primeiro passo só depende de você!

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