Existem encontros na vida que mudam não apenas os nossos finais de semana, mas a estrutura completa da nossa existência. O esporte, além de ser um pilar insubstituível para a manutenção da saúde física e mental, possui uma característica quase mágica: a capacidade de conectar pessoas em torno de propósitos comuns. É exatamente essa a tônica da bela e inspiradora entrevista conduzida pelo sempre otimista Alberto Dal Molin Filho no Canal Energicy, gravada no ambiente aconchegante da Livraria Paisagem, no Shopping Bourbon Carlos Gomes.
O episódio apresenta um case de sucesso extraordinário protagonizado pelo casal de maratonistas amadores Alex e Ana Lu. Pessoas comuns, com profissões exigentes e rotinas atarefadas, que encontraram no asfalto e nas pistas de corrida não apenas uma válvula de escape para o estresse do dia a dia, mas uma verdadeira revolução na qualidade de vida e, supreendentemente, o amor de suas vidas. Neste artigo abrangente, exploraremos como o esporte os uniu, a impressionante melhoria em seus marcadores biológicos de saúde, as espetaculares viagens internacionais planejadas em torno das seis maiores provas do mundo (as Majors) e os profundos aprendizados que a maratona e transformação de vida podem proporcionar a qualquer indivíduo disposto a dar o primeiro passo.
As Origens e a Busca Pela Estabilidade Profissional
Antes de se tornarem corredores apaixonados e de cruzarem linhas de chegada ao redor do planeta, Alex e Ana Lu trilharam caminhos profissionais distintos, mas marcados pelo esforço e pela dedicação.
Ana Lu é contadora de formação. Ela relata que a sua escolha de carreira foi fortemente influenciada por uma visão realista do mercado de trabalho e da vida empreendedora. Crescendo como filha de um pequeno empresário, ela testemunhou as angústias, o trabalho aos finais de semana e a constante falta de tempo livre de seu pai. Buscando fugir da imprevisibilidade empresarial, ela focou na estabilidade e na segurança. Graduou-se em Ciências Contábeis pela renomada Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e, incentivada por um tio, prestou concurso para o Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul). Hoje, ela celebra 20 anos de uma carreira sólida e feliz na instituição bancária.
Alex, por sua vez, carrega a resiliência típica daqueles que deixam o interior em busca de horizontes mais amplos. Nascido em Cachoeira do Sul, ele formou-se em um curso técnico de radiologia médica no hospital local. A ausência de oportunidades em sua cidade natal o impulsionou a se mudar para Porto Alegre em 2004. Inquieto e buscando sempre a evolução, Alex cursou o nível superior (tornando-se Tecnólogo em Radiologia Médica) e alcançou metas profissionais impressionantes. Ele ingressou no prestigioso Hospital Moinhos de Vento (o terceiro melhor hospital do Brasil) e foi aprovado em um concurso para o Grupo Hospitalar Conceição, o maior complexo 100% SUS do país. Ele concilia os dois empregos, aproveitando a carga horária de quatro horas diárias inerente à profissão da radiologia.
Ambos alcançaram o sucesso profissional desejado. Contudo, essa intensa dedicação ao trabalho cobraria o seu preço na saúde física.
O Ponto de Virada: O Sedentarismo e o Medo da Morte
O despertar para a atividade física frequentemente não ocorre por vaidade, mas por necessidade ou até mesmo por um “susto”. A entrada de Alex no mundo da corrida é um clássico exemplo desse fenômeno.
Em uma fase de sua vida onde trabalhava em três hospitais simultaneamente, a sua rotina resumia-se a plantões, deslocamentos e exaustão. Certo dia, ao tentar realizar um simples passeio de bicicleta com alguns amigos, o seu corpo não resistiu ao esforço. A sensação de falta de ar e a taquicardia foram tão extremas que ele, com a franqueza típica de quem viveu o momento, confessa a Alberto Dal Molin: “Eu achei que eu ia morrer”.
Esse episódio traumático, ocorrido por volta de 2012, foi a “virada de chave”. Incentivado por um amigo, Alex inscreveu-se em sua primeira corrida de rua, uma prova rústica de 5 a 10 km. A partir daquele momento, a paixão pelo movimento o fisgou. A corrida tornou-se a sua âncora, devolvendo-lhe a disposição e transformando radicalmente o seu bem-estar.
Coincidentemente, no mesmo ano de 2012, Ana Lu também buscava uma mudança. Embora frequentasse academias de forma irregular, sentia a necessidade de algo mais estruturado. A oportunidade surgiu dentro de sua própria empresa. Atenta aos altos índices de problemas de saúde física e mental entre os funcionários, a coordenação do Banrisul (através da iniciativa da colega Cláudia Lucchese) fundou um grupo de corrida e caminhada corporativa. Ana Lu inscreveu-se. O que começou como uma busca por exercício físico rapidamente transformou-se em uma poderosa ferramenta de socialização, formando os alicerces das amizades que ela preserva até os dias de hoje.
O Encontro Sob o Sol: O Amor Que Nasceu na Travessia Torres-Tramandaí
O clímax romântico dessa história ocorreu durante um dos eventos mais desafiadores e tradicionais do calendário de corridas gaúcho: a mítica Travessia Torres-Tramandaí (TTT). Realizada no auge do verão, em janeiro, a prova exige enorme resistência física e mental dos atletas, que frequentemente competem em esquemas de revezamento sob sol escaldante, correndo pela beira da praia.
Ambos estavam na prova competindo em duplas de revezamento (Ana Lu com uma amiga e Alex em uma dupla mista). O destino foi selado na área de convivência armada na linha de chegada. Exaustos, mas eufóricos pela conclusão da prova (as famosas “endorfinas” do corredor), eles foram apresentados por uma amiga em comum. A química foi instantânea. Alex brinca com a situação, afirmando aos risos que “foi ela que deu em cima de mim”. Um mês após aquela apresentação na areia da praia, eles estavam namorando. E a partir dali, o asfalto, os treinos e as viagens nunca mais seriam solitários.
Correndo Pelo Mundo: O Planejamento de Viagens Internacionais
Quando um casal de corredores une as suas vidas, as férias deixam de ser simples períodos de descanso à beira da piscina e transformam-se em complexos roteiros logísticos e esportivos. A maratona e transformação de vida passou a ditar o destino das passagens aéreas e das reservas de hotéis de Alex e Ana Lu.
A primeira viagem internacional do casal ocorreu em abril de 2019, rumo à bela capital uruguaia para a Maratona de Montevidéu. A experiência de aliar o turismo ao esporte foi tão positiva que desencadeou uma série de grandes aventuras pelo mundo. Eles participaram da Maratona do Rio de Janeiro em 2021 (o primeiro grande evento pós-pandemia no Brasil), das Maratonas de São Paulo e Nova York em 2022, Berlim em 2023 e Buenos Aires em 2024.
O planejamento dessas viagens é um trabalho meticuloso e empolgante, revelando a disciplina do casal amador que custeia os próprios sonhos. Eles se organizam com meses de antecedência, estudando o destino, a cultura e a logística local. Ana Lu, com grande visão de futuro, dedicou-se intensamente ao estudo da língua inglesa nos últimos cinco anos, visando garantir autonomia nas viagens internacionais.
A estratégia do casal é inteligente: eles costumam chegar ao país poucos dias antes da prova. Durante o período pré-maratona, eles focam no repouso absoluto, “poupando as pernas”, comendo de forma regrada (focada em carboidratos leves) e mantendo a concentração. Somente após cruzarem a linha de chegada de 42.195 metros e garantirem as suas medalhas é que eles “destravam” o modo turista, entregando-se sem culpas às caminhadas, aos passeios exaustivos e à rica gastronomia dos restaurantes locais.
De Berlim a Munique: O “Turismo Maratonista” na Europa
Para ilustrar a magnitude desse planejamento, Alex detalha o incrível roteiro realizado após a Maratona de Berlim (uma das provas mais rápidas do mundo e o sonho de consumo de qualquer corredor que busca recordes pessoais).
A viagem europeia do casal não se resumiu aos 42 km na capital alemã. Após a prova, eles embarcaram em um circuito ferroviário formidável. Partiram para Praga (na República Tcheca), seguiram para Viena (na Áustria) e retornaram à Alemanha especificamente para vivenciar os últimos dias da grandiosa Oktoberfest, em Munique. Não satisfeitos, alugaram um carro e percorreram 1.300 km desbravando toda a famosa Rota Romântica e os lendários castelos da região da Baviera. O périplo encerrou-se na Bélgica, conhecendo a cidade de Bruxelas. Foram 24 dias inesquecíveis. Como bem define Alex, “a viagem não acontece em 24 dias, ela acontece meses antes, durante o planejamento; e é eterna na nossa cabeça”.
Aventuras Extremos no Fim do Mundo
As viagens, no entanto, não são feitas apenas de museus e restaurantes. Às vezes, o esporte abre portas para experiências de alto risco. Após correrem a vibrante Maratona de Buenos Aires, o casal decidiu explorar as extremidades geladas da Argentina: El Calafate, El Chaltén, a região da Patagônia e Ushuaia (a cidade mais austral do planeta).
Durante um trekking de montanha em setembro (época em que não deveria haver acúmulo severo de neve), eles se depararam com um cenário adverso no topo de um morro. Sem o aviso prévio do guia e, mais grave ainda, sem os equipamentos de segurança obrigatórios (como os “grampões” ou crampons acoplados aos calçados), eles iniciaram a descida do morro congelado. Ana Lu relata o terror de escorregar incessantemente, levando cerca de uma hora para descer um único quilômetro íngreme. O risco de vida foi real. Apenas posteriormente eles descobriram a gravidade da situação em que se envolveram. Hoje, com segurança em solo firme, a experiência tornou-se uma excelente (e arrepiante) “história para contar”.
A Reversão do Relógio Biológico: O Milagre da Fisiologia
O momento mais cientificamente fascinante da entrevista conduzida por Dal Molin diz respeito aos resultados médicos colhidos pelo casal. O que a maratona e transformação de vida gerou em termos biológicos é nada menos do que um milagre da disciplina.
Ana Lu e Alex pautam as suas rotinas em torno dos treinamentos de corrida. Isso significa dormir cedo, alimentar-se de forma extremamente balanceada e treinar (muitas vezes na pista da Sogipa ou fazendo os exaustivos “longões” aos sábados de manhã pelas ruas e orlas de Porto Alegre). O resultado prático dessa rotina rigorosa apareceu nos exames médicos recentes.
Embora o casal seja maduro, os seus exames revelaram que a idade biológica de ambos é imensamente inferior à idade cronológica. O coração de Alex e Ana Lu apresenta os marcadores de jovens na faixa dos 20 a 25 anos. Mais impressionante ainda é o índice de VO2 Máximo da dupla. O VO2 Máximo é a medida da capacidade cardiorrespiratória e do volume máximo de oxigênio que o corpo consegue captar e utilizar durante o exercício físico intenso. Os índices de Ana Lu e Alex são comparáveis aos de atletas de altíssimo rendimento.
Dal Molin ressalta esse fato com entusiasmo, lembrando aos espectadores que o exercício físico constante, embora doloroso no início, é o verdadeiro “elixir da juventude”. A corrida devolveu a Alex e Ana Lu a vitalidade celular, provando que a saúde preventiva no asfalto é muito mais eficiente (e barata) do que o tratamento das doenças decorrentes do sedentarismo.
A Glória Eterna: A Conquista da Maratona de Boston
No mundo do atletismo de rua, não existe prova mais sagrada, prestigiada e seletiva do que a Maratona de Boston, nos Estados Unidos. Ao contrário de outras provas, onde basta pagar a inscrição para correr, Boston exige um “Índice de Qualificação” (BQ – Boston Qualify). O atleta amador precisa provar que é absurdamente rápido em outras maratonas, correndo abaixo de um tempo de corte severo determinado pelo seu sexo e faixa etária.
Alex já possuía o índice e a qualificação garantidos. Contudo, em uma demonstração de profundo amor, companheirismo e técnica de estímulo mental, ele lançou um ultimato a Ana Lu: “Eu só vou correr a Maratona de Boston no dia em que você também conseguir o seu índice e formos juntos”.
O desafio estava lançado, e a pressão era brutal. A jornada de Ana Lu para alcançar a marca de corte levou suados e dolorosos três anos. No primeiro ano de tentativa, ela alcançou o tempo de sua faixa etária, mas foi “cortada” por não ser rápida o suficiente para superar o ponto de corte flutuante (que reduz os tempos quando há excesso de inscritos rápidos). Ela ficou de fora por ínfimos um minuto. No segundo ano, o cenário foi ainda mais cruel: ela foi cortada por excruciantes 20 segundos de diferença. Para um corredor amador, 20 segundos em uma prova de 42 km é uma frustração amarga.
Mas a resiliência é a marca de um maratonista. No terceiro ano de tentativas, treinando de forma implacável e acreditando no seu potencial, Ana Lu estilhaçou o cronômetro, garantindo a sua vaga. O relato sobre a prova de Boston é emocionante. Trata-se de uma cidade inteira que para durante uma semana para reverenciar os atletas. Trinta mil pessoas sendo transportadas em uma operação logística monumental para a cidade de Hopkinton (local da largada), correndo sob os aplausos e os gritos de incentivo ininterruptos dos moradores americanos desde as sacadas até as calçadas.
Ana Lu exibe orgulhosamente a famosa medalha com o Unicórnio (símbolo de Boston) durante a entrevista, materializando a vitória da insistência e da parceria do casal.
O Conselho Final e o Perigo da Educação Permissiva
Caminhando para o encerramento do encontro, Dal Molin, coerente com a proposta pedagógica de seu canal, pede ao casal que deixe uma mensagem para aqueles que estão hesitando em mudar de vida. A mensagem de Alex é clara e contundente: acredite em si mesmo, insista e suporte o processo. A disciplina sempre, inevitavelmente, entregará a recompensa. Ana Lu complementa que o importante não é necessariamente a corrida de longa distância, mas o movimento em si: seja a dança, a caminhada ou a bicicleta, o exercício físico muda vidas, traz longevidade e atrai amizades que se tornam uma verdadeira família.
Em um ato de profundo respeito e troca intelectual, Alberto Dal Molin Filho encerra o episódio presenteando o casal com o seu aclamado livro: Perigos da Educação Permissiva. A história do livro — que narra a trajetória de um jovem bem-sucedido e viajado que, ao se tornar pai, decide criar o filho sem nenhuma regra, restrição ou a palavra “não”, resultando em consequências devastadoras — serve como uma metáfora perfeita para o esporte e para a vida.
Assim como não se constrói um corredor de elite permitindo que ele pule os treinos difíceis, não se forja um caráter sólido eximindo uma criança das frustrações e das disciplinas inerentes ao crescimento. O casal compreende perfeitamente a mensagem de Dal Molin: a liberdade real e as grandes conquistas (sejam elas uma medalha de Boston ou o sucesso na criação de uma família) nascem da capacidade de superar os limites e suportar as regras e as dores da preparação.
A história de Alex e Ana Lu é a prova viva de que a vida ganha sentido quando estamos em movimento. Eles correram contra o tempo, superaram o risco de problemas de saúde, cruzaram continentes, dominaram o asfalto e, no meio de tudo isso, descobriram que a maior vitória não é o tempo registrado no relógio, mas a mão que se segura quando se cruza a linha de chegada.







