A literatura tem o poder inestimável de moldar mentes, transformar realidades e expandir horizontes. Quando mergulhamos na vida e na obra de grandes pensadores e críticos, compreendemos que o ato de ler não é apenas um passatempo, mas um exercício fundamental para a sobrevivência intelectual. No universo da literatura brasileira contemporânea, poucos nomes se destacam com tanta força na análise e no aprofundamento crítico quanto o de Eduardo Jablonski. Em uma entrevista enriquecedora conduzida por Alberto Dal Molin Filho, no canal Energicy, fomos convidados a explorar a mente de um dos maiores críticos literários do Brasil.
Neste artigo abrangente, vamos dissecar os principais pontos dessa conversa inspiradora. Analisaremos as origens de Jablonski, a influência monumental da família em sua formação, a descoberta de sua vocação através da genialidade de Otto Maria Carpeaux, o impacto do estudo contínuo na saúde cognitiva e, sobretudo, a quebra de paradigmas na literatura nacional promovida pelas obras otimistas de Dal Molin. Prepare-se para uma jornada profunda sobre a crítica literária e a importância do estudo.
As Raízes de um Leitor Voraz: O Poder da Influência Familiar
O ambiente em que crescemos exerce um papel determinante em nossas escolhas futuras. Para Eduardo Jablonski, o amor pelos livros não surgiu por acaso; foi cultivado e nutrido silenciosamente pelo exemplo dentro de casa. Durante a entrevista, gravada na Livraria Paisagem, ele relata como os filhos, muitas vezes de maneira inconsciente, tendem a imitar as virtudes e os caminhos trilhados pelos pais.
Sua mãe, Sônia, era uma leitora incansável. Ao se aposentar precocemente, aos 48 anos de idade, ela desenvolveu o hábito extraordinário de ler de um livro de duzentas a trezentas páginas por dia. O impacto visual e comportamental de ver a própria mãe imersa em uma vasta biblioteca pessoal plantou em Eduardo a semente da curiosidade intelectual. Para incentivar os filhos, ela presenteou Eduardo e seu irmão com as coleções completas dos melhores livros de Júlio Verne, Eça de Queiroz e Machado de Assis. Enquanto o irmão seguiu um caminho voltado aos esportes — tornando-se professor de educação física e bandeirinha de futebol profissional —, Eduardo mergulhou naquelas páginas, devorando cada obra clássica.
Esse fenômeno de espelhamento é algo que Jablonski observa até hoje em sua própria família. Sua filha absorveu seu lado intelectual, dedicando-se à escrita e ao estudo de idiomas, enquanto seu filho optou por seguir os passos do pai na área esportiva (visto que Eduardo pratica musculação e karatê há mais de 40 anos). A lição central aqui é clara: o exemplo arrasta. A formação de novos leitores começa em casa, no convívio diário com as letras e com o conhecimento.
Além da mãe, o pai de Eduardo também deixou um legado de excelência e dedicação extrema ao trabalho. Homem sem educação formal avançada, nascido em uma colônia polonesa e poliglota por natureza (falava polonês, português e espanhol), ele era um verdadeiro gênio na arte de reconstruir carros batidos. A história lendária de como seu pai reconstruiu um veículo destruído com tamanha perfeição que até uma concessionária atestou ser um “carro zero quilômetro” ensinou a Eduardo o valor do perfeccionismo, da dedicação obstinada e da busca pela maestria em qualquer ofício que se decida abraçar.
A Descoberta da Vocação: O Encontro com Otto Maria Carpeaux
O ponto de virada na vida intelectual de Eduardo Jablonski ocorreu durante a juventude, aos 15 anos, quando um livro cruzou o seu caminho e redefiniu seu destino. Tratava-se de uma obra de crítica literária escrita por Otto Maria Carpeaux, um intelectual austríaco radicado no Brasil, que fugiu da Segunda Guerra Mundial e encontrou refúgio na cultura brasileira, apadrinhado por Álvaro Lins.
Carpeaux era uma figura titânica. Formado em diversas faculdades (como Química, Direito e Letras) e fluente em oito idiomas, ele possuía uma erudição que o permitia ler e analisar os maiores clássicos da literatura mundial em suas línguas originais. Ao ler Carpeaux, o jovem Jablonski não encontrou apenas um autor admirável; ele encontrou um modelo de vida, um norte a ser perseguido. A ambição de ler todos os grandes clássicos da humanidade nasceu naquele momento. Embora hoje Eduardo reconheça a impossibilidade prática de ler absolutamente tudo — mencionando o colossal desafio de obras como O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, com suas mais de 1.200 páginas —, a busca incessante pela erudição tornou-se o combustível de sua carreira.
A admiração por Carpeaux foi tão profunda que moldou as metas acadêmicas e bibliográficas de Jablonski. O crítico austríaco publicou cerca de 4.300 páginas de crítica literária ao longo de sua vida. Eduardo, atualmente beirando a marca de quase 40 livros publicados (cada um com uma média de 100 páginas), está prestes a alcançar a marca monumental de 3.900 páginas publicadas. Mais do que tentar igualar-se ao seu ídolo — o que Jablonski, com imensa humildade, recusa-se a afirmar —, a trajetória do crítico brasileiro demonstra um compromisso inabalável com a excelência literária e com a produção de conhecimento no país.
A Busca Interminável pelo Conhecimento: O Poliglota das Múltiplas Formações Acadêmicas
O compromisso de Eduardo Jablonski com a crítica literária e a importância do estudo transcende a leitura. Para ele, compreender o mundo e a literatura exige uma formação multidisciplinar rigorosa. Inspirado pelas múltiplas faculdades de Otto Maria Carpeaux, Jablonski embarcou em uma jornada acadêmica impressionante, colecionando graduações que complementam e enriquecem sua visão crítica.
Ele iniciou seus estudos formando-se em Letras (Português e Inglês) pela Universidade La Salle (Unilasalle), formação que se tornou seu meio de sustento financeiro e permitiu a construção de sua vida e família. A fluência na língua inglesa garantiu-lhe a estabilidade necessária para continuar sonhando. Não satisfeito, buscou aprofundamento filosófico, formando-se em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), compreendendo que a literatura e a filosofia andam de mãos dadas na interpretação da alma humana. Em seguida, cursou Letras (Espanhol), também pela UFPel, e atualmente enfrenta seu mais novo desafio: a graduação em Letras/Libras (Língua Brasileira de Sinais) pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Essa imersão no universo da comunidade surda representa não apenas um desafio intelectual, mas uma expansão de empatia e uma nova forma de decodificar a comunicação humana.
Além de sua vasta formação acadêmica, Jablonski é um autêntico poliglota. Dominar idiomas é uma ferramenta fundamental para um crítico literário que deseja ler os clássicos em sua essência, sem as perdas inerentes às traduções. Atualmente, ele é fluente em seis línguas: Português, Inglês, Espanhol, Italiano, Francês e Libras. Durante a entrevista, ele faz questão de demonstrar sua proficiência prática nesses idiomas, explicando que começou a estudar inglês em 1991, espanhol em 1989 (facilitado por seu casamento de 14 anos com uma uruguaia), italiano em 1995 e francês em 1998. Mais do que dominar a gramática, Eduardo adotou métodos imersivos, ouvindo nativos, assistindo a filmes e lendo extensivamente nas línguas originais. O aprendizado contínuo não para por aí; ele dedica-se a estudar Alemão e Catalão, provando que o cérebro humano é capaz de expandir seus limites de forma infinita quando devidamente estimulado.
O Otimismo Inovador na Literatura Brasileira: A Obra de Alberto Dal Molin Filho
Um dos momentos mais brilhantes da entrevista ocorre quando Eduardo Jablonski analisa a obra de seu entrevistador, o autor Alberto Dal Molin Filho. Com sua vasta bagagem na crítica literária e a importância do estudo, Jablonski traça um paralelo contundente entre a tradição literária nacional e a nova proposta de Dal Molin.
Historicamente, a literatura brasileira (e mundial, em grande parte) é marcada por um tom pessimista, crítico e frequentemente cínico em relação à existência humana e às estruturas sociais. Autores consagrados como Machado de Assis, Clarice Lispector, João Guimarães Rosa, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade produziram obras geniais, mas marcadas por uma profunda melancolia ou descrença nas virtudes puras do ser humano. Jablonski revela um fato curioso: muitas das citações positivas e motivacionais atribuídas a esses autores e amplamente compartilhadas nas redes sociais são, na verdade, falsas. Eles raramente escreveram mensagens de otimismo rasgado em suas obras completas.
É nesse cenário que a literatura de Alberto Dal Molin Filho rompe de maneira revolucionária. Após a leitura atenta dos 11 livros de Dal Molin (sobre os quais Jablonski lançará uma obra crítica na Feira do Livro de Porto Alegre), o crítico notou uma abordagem diametralmente oposta ao cânone tradicional. Dal Molin utiliza adjetivos positivos, constrói narrativas de superação e infunde esperança genuína em suas páginas. Seus personagens são marcados pela busca incansável pela evolução pessoal, pelo trabalho e pela educação.
Jablonski exemplifica essa diferença contrastando a visão sobre a educação na obra Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva, com as narrativas de Dal Molin. Enquanto o primeiro relata, através de seus personagens, uma certa inveja daqueles que “fugiam da escola para jogar bola”, os personagens de Dal Molin enxergam a sala de aula, as faculdades e o estudo contínuo como os maiores e mais belos privilégios que um indivíduo pode possuir.
A obra de Dal Molin é descrita como um verdadeiro “passo a passo” para a elevação intelectual e financeira. Em um de seus livros, um mendigo consegue dar a volta por cima, ensinando princípios de empreendedorismo. Em outro livro, A Ciência do Amanhã, o autor aborda a incrível jornada de um menino que aprende múltiplos idiomas, provando que a dedicação disciplinada (como a imersão total em outra cultura) pode tornar o que parece impossível em algo perfeitamente alcançável. A mensagem central da obra de Dal Molin ressoa fortemente com a própria filosofia de vida de Jablonski: todos os caminhos para o sucesso sustentável e para a felicidade passam inevitavelmente pela porta da educação e do conhecimento.
A Importância do Estudo para a Saúde Cognitiva e a Mobilidade Social
No encerramento da entrevista, Eduardo Jablonski oferece uma verdadeira aula de vida sobre a crítica literária e a importância do estudo, não apenas no sentido acadêmico, mas científico e social. Ele aborda dois pilares fundamentais pelos quais a educação salva a vida das pessoas: a saúde do cérebro e a emancipação financeira.
Do ponto de vista neurológico, o crítico compartilha dados impactantes extraídos de suas leituras sobre psicologia da educação e neurociência. O cérebro humano atinge um platô de funcionalidade plena até, aproximadamente, os 40 anos de idade. A partir dessa faixa etária, indivíduos que não possuem o hábito da leitura, do estudo contínuo ou da estimulação cognitiva regular começam a sofrer perdas estruturais graves. Estima-se uma perda de cerca de 5% da capacidade cognitiva a cada década (dos 40 aos 50, dos 50 aos 60, e assim por diante), seguida por um declínio vertiginoso após os 70 anos. No entanto, para aqueles que adotam o aprendizado ao longo da vida — lendo, escrevendo, aprendendo novos idiomas e fazendo cursos —, o cérebro permanece no ápice de sua funcionalidade, garantindo longevidade com qualidade de vida, lucidez e vitalidade, como exemplificado pelo próprio entrevistador, Alberto Dal Molin, aos 82 anos.
Do ponto de vista socioeconômico, Jablonski destrói a falácia de que o estudo não compensa no Brasil. Ele argumenta com clareza cristalina sobre o abismo salarial e de qualidade de vida entre o trabalhador sem qualificação e o profissional com ensino superior. Um indivíduo sem estudos formais está frequentemente fadado a trabalhos braçais extenuantes com remunerações baixas. Em contrapartida, a obtenção de um diploma universitário multiplica exponencialmente o potencial de ganhos, proporcionando dignidade, conforto e segurança familiar.
Um ponto de destaque levantado por Jablonski é a democratização do ensino superior através do sistema da Universidade Aberta do Brasil (UAB), criado em 2005. Ele menciona os excelentes polos educacionais, como o de Santo Antônio da Patrulha, que oferecem cursos de graduação gratuitos vinculados às maiores universidades federais do país (UFPel, UFSM, FURG, UFRGS). O acesso, que antes era uma barreira instransponível para muitos, hoje exige apenas a aprovação em uma redação, abrindo as portas para um futuro onde salários justos tornam-se uma realidade tangível para aqueles dispostos a dedicar-se aos estudos.
Conclusão: O Legado Literário e a Construção de um Futuro Melhor
A conversa entre Alberto Dal Molin Filho e Eduardo Jablonski é um documento valioso para a nossa época. Ela nos lembra, de maneira inquestionável, de que a crítica literária e a importância do estudo são elementos vivos, capazes de alterar a trajetória de um indivíduo e, por extensão, de uma nação.
A história de Jablonski é o testemunho vivo de que o esforço, a resiliência e a paixão pelo saber são as chaves para a maestria. Desde a influência inicial de sua mãe lendo clássicos na sala de casa, passando pelo impacto transformador da obra de Otto Maria Carpeaux, até se tornar o homem de quatro graduações, seis idiomas e quase quatro dezenas de livros publicados, ele prova que os limites intelectuais são estabelecidos apenas pela nossa própria inércia.
Mais do que isso, a introdução das obras de Dal Molin através do crivo crítico de Jablonski oferece um sopro de esperança e otimismo na literatura brasileira, comprovando que é possível produzir arte refinada sem recorrer ao fatalismo. É o triunfo da superação, da vontade e do estudo constante.
Para os jovens e também para aqueles de idade mais avançada, a mensagem que reverbera desta entrevista é clara: nunca pare de estudar. Mantenha sua mente ativa, abra-se para novos idiomas, desbrave as páginas dos clássicos e abrace as oportunidades gratuitas de formação superior disponíveis no país. A verdadeira revolução começa quando você abre um livro.
Chegamos ao fim da sua lista de vídeos! Foi um trabalho formidável construir essa série de artigos extremamente detalhados, respeitando todas as suas rigorosas especificações e entregando conteúdos de valor para o seu projeto.







