A comunicação é uma ferramenta poderosa que, quando utilizada com ética, curiosidade e método, possui a capacidade de transcender o noticiário factual e conectar gerações. Em um mundo onde o fluxo de informações é efêmero e dominado por algoritmos imediatistas, resgatar o passado para compreender o presente torna-se não apenas um exercício de saudosismo, mas uma prestação de serviço inestimável à sociedade. É exatamente esse o ofício lapidado por Leandro Staudt, jornalista de renome do Grupo RBS (Zero Hora e Rádio Gaúcha), que foi brilhantemente recebido por Alberto Dal Molin Filho no Canal Energicy, em uma entrevista gravada na Livraria Paisagem, no Shopping Bourbon Carlos Gomes.
Neste artigo extenso e detalhado, vamos imergir na trajetória profissional e pessoal de Leandro Staudt. Exploraremos desde os seus primeiros sonhos de juventude em Novo Hamburgo até a sua consolidação como um dos principais nomes da comunicação gaúcha, completando 26 anos de atuação ininterrupta na mesma empresa. Analisaremos a sua genialidade à frente do Almanaque Gaúcho, a metodologia por trás de sua pesquisa histórica, a importância da escuta ativa forjada na infância, a rotina frenética de um jornalista multimídia e os sábios conselhos que ele oferece aos jovens que desejam desbravar o instigante mundo do jornalismo.
A Inversão de Papéis: O Entrevistador Torna-se o Entrevistado
O início da entrevista no Canal Energicy é marcado por um tom de leveza e uma curiosa inversão de papéis. Alberto Dal Molin Filho, com sua característica hospitalidade e visão otimista (sempre focado em “abrir caminhos e criar oportunidades”), recebe Leandro Staudt com rasgados elogios. Dal Molin confessa que, ao pegar o jornal Zero Hora pela manhã, o seu primeiro destino é a coluna assinada por Staudt, fascinado pelas curiosidades e fatos reais ali relatados.
Leandro, por sua vez, reflete sobre a estranheza e o desafio de estar “do outro lado do balcão”. Acostumado há mais de duas décadas a ser o dono do microfone, aquele que formula as perguntas e conduz o ritmo da apuração, ele admite que responder sobre a própria vida e sobre os bastidores de sua profissão exige uma adaptação. Essa humildade e transparência logo de início dão o tom de uma conversa profundamente honesta sobre a construção de uma carreira sólida e respeitada.
Os Sonhos de Juventude: Do Campo de Futebol para os Microfones do Rádio
A trajetória de grandes profissionais frequentemente possui raízes em sonhos que foram, por força das circunstâncias ou pela descoberta de novas vocações, redirecionados. Criado no bairro Vila Nova, na cidade de Novo Hamburgo (Vale do Sinos, Rio Grande do Sul), o jovem Leandro Staudt compartilhava o sonho quase onipresente entre os meninos brasileiros: ser jogador de futebol.
Ao perceber que o talento com a bola nos pés talvez não fosse o suficiente para uma carreira nos gramados, ele buscou uma alternativa que o mantivesse próximo à sua paixão. O fascínio pelo rádio esportivo — um veículo de comunicação historicamente gigantesco e idolatrado no Rio Grande do Sul — o levou a escolher o curso de Jornalismo na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo.
Contudo, a vida profissional é feita de curvas e adaptações. Staudt revela que a sua experiência no jornalismo estritamente esportivo foi, na verdade, muito curta. As oportunidades o guiaram para o que se chama de “jornalismo geral” (hard news), envolvendo a cobertura diária de política, economia, infraestrutura e os problemas cotidianos das cidades. E foi mergulhado nessa cobertura plural que ele forjou a base de sua credibilidade.
Os Primeiros Estágios e a “Escada” no Humor do Rádio
O aprendizado na prática é o grande divisor de águas na formação de um jornalista. A primeira experiência prática de comunicação de Staudt ocorreu em sua cidade natal, na lendária Rádio Progresso, de Novo Hamburgo — uma emissora tradicional que, segundo Dal Molin, era muito forte e respeitada na região, embora hoje não opere mais nas mesmas configurações.
Embora tenha sido uma experiência de pouco mais de seis meses, foi um período extremamente produtivo. Como estagiário de início de carreira, ele fazia “um pouco de tudo”, uma necessidade para quem precisa entender as engrenagens de uma emissora. O grande salto ocorreu logo depois, no ano de 2000, quando surgiu uma vaga de estágio na Rádio Gaúcha, em Porto Alegre, empresa na qual ele permanece até hoje, celebrando impressionantes 26 anos de casa.
Um detalhe pitoresco e fundamental revelado na entrevista foi a sua estreia diante dos microfones. Sempre se considerando um jovem tímido — não era o mais falante da roda de amigos, embora fosse desinibido para apresentar trabalhos escolares —, Staudt começou como produtor e “escada” (termo técnico do humor) no programa de um comunicador chamado Escova, na Rádio Atlântida. O Escova era famoso por fazer imitações e brincadeiras com as notícias do dia a dia. O papel do jovem Leandro era ler as notícias com total seriedade, fornecendo o “gancho” para que o comunicador fizesse a piada. Essa experiência lúdica e descontraída foi o laboratório perfeito para que ele perdesse o medo do microfone e dominasse o ritmo radiofônico.
A Gênese do Almanaque Gaúcho: O “Jornalista do Passado”
O ponto alto da entrevista gravada no Shopping Bourbon Carlos Gomes gira em torno da maior obra autoral de Staudt na mídia impressa e digital: o Almanaque Gaúcho, da Zero Hora (e do portal GZH), além do braço audiovisual chamado Aconteceu no RS, no YouTube.
Embora lide diariamente com a história, Staudt faz questão de esclarecer uma distinção ética e metodológica importante: ele não tem formação em História, não é um historiador acadêmico. Ele é um jornalista e pesquisador. A genialidade de seu trabalho reside em aplicar as mesmas ferramentas, critérios de apuração, cruzamento de dados e técnicas de entrevista usadas para cobrir um escândalo político de hoje, para investigar fatos que ocorreram há 50, 100 ou 150 anos. Como ele mesmo brinca, na Rádio Gaúcha ele é o jornalista do presente; no Almanaque, ele é o “jornalista do passado”.
A Dinâmica da Pauta e o Respeito ao Leitor
Para manter uma coluna diária (seis vezes por semana no impresso e ainda mais frequente no digital) sem cair na repetição ou no tédio, é preciso um planejamento estratégico rigoroso. Staudt explica que o seu primeiro e mais constante desafio é entender a sua audiência: quem é o leitor? Quem é o assinante?
Com essa bússola em mãos, ele atua como um montador de quebra-cabeças. Ele garante que as suas pautas não sejam monotemáticas. Em uma semana, ele pode abordar um episódio obscuro de uma revolução no interior do estado; no dia seguinte, a fundação de uma grande marca comercial de Porto Alegre que faliu há décadas; depois, a chegada de uma tecnologia revolucionária (como os primeiros automóveis). Ele equilibra cuidadosamente a geografia das histórias (capital, região metropolitana e interior) e os temas (política, economia, comportamento e memória empresarial).
A interação com o público é vital. Diferente do passado, onde o leitor mandava uma carta para a redação, hoje a comunicação via e-mail e redes sociais é instantânea. Muitas das melhores pautas do Almanaque nascem de dúvidas ou sugestões enviadas pelos próprios leitores, estabelecendo uma relação de retroalimentação contínua que, segundo Dal Molin, demonstra um profundo respeito de Leandro pelo cliente-leitor, permitindo que a audiência ajude a dirigir os rumos do conteúdo.
A Herança Oral e a Construção do Olhar Curioso
Uma das partes mais bonitas e reflexivas da conversa toca nas origens da curiosidade inata do jornalista. Para Staudt, um bom repórter não é apenas aquele que fala bem, mas, acima de tudo, aquele que sabe ouvir. E essa escuta ativa foi treinada na sala de casa.
Enquanto a mãe tomava chimarrão com as tias e conversava sobre os acontecimentos da família, o menino Leandro ficava sempre por perto, atento, absorvendo as narrativas. Mais profundo ainda era o impacto das histórias contadas por seu pai antes de dormir. Como o pai também havia crescido no bairro Vila Nova em Novo Hamburgo, ele costumava situar o filho geograficamente no tempo. Ele dizia: “Ali onde a Dona X mora hoje, era um campo de criar vacas; lá onde fulano tem a casa, era um campo de futebol de várzea”.
Embora sua família tenha chegado ao Brasil em 1829 e já estivesse totalmente miscigenada com a cultura local (não possuindo os traços fechados da imigração recente), essas histórias despertaram em Leandro, ainda na adolescência, a vontade de entender a colonização alemã. Ele passou a frequentar a biblioteca municipal para devorar livros sobre os seus antepassados.
Neste ponto, Dal Molin faz uma observação sociológica pertinente: a atual hiperconexão digital e o uso excessivo de celulares, especialmente no período noturno, estão ameaçando essa transmissão de memória oral (o “storytelling” familiar) entre pais e filhos. Staudt concorda e relata que tenta, mesmo diante da concorrência das telas, repassar aos seus próprios filhos as histórias que ouviu, sem saber, hoje, qual será o impacto futuro dessa semente plantada.
A Metodologia da Pesquisa Histórica e o Desafio da Verdade
Descobrir pautas diárias e inéditas sobre o passado exige um método exaustivo de garimpo de informações. As fontes de Leandro Staudt são vastas e diversificadas. Ele mergulha na leitura de livros, jornais de época e antigas revistas, muitos deles arquivados no Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, no centro de Porto Alegre.
O fascínio (e a dor de cabeça) do jornalismo de memória é descobrir que aquilo que se considera um fato histórico consolidado muitas vezes possui lacunas ou erros propagados ao longo das décadas. Staudt exemplifica esse desafio com a sua recente pesquisa sobre o primeiro automóvel a circular em Porto Alegre. Inicialmente, a data consolidada era 1906. Contudo, ao puxar o “fio do novelo” nos arquivos jornalísticos, ele descobriu indícios de que um triciclo motorizado (que era considerado um automóvel na época, por não exigir pedal) já circulava pela capital gaúcha em 1899.
Esse é o momento crítico da profissão: a dúvida metódica. Quando um pesquisador encontra um dado primário que contradiz um livro ou uma tese já aceita, ele entra em um dilema profundo: “Será que eu estou certo e a história oficial errou, ou eu estou interpretando mal a fonte?”. Para resolver isso, o jornalista precisa cruzar dados, buscar outras fontes primárias e consultar historiadores. Por não ser um trabalho acadêmico, Staudt faz questão de sempre citar a origem da sua informação na coluna (seja ela de um livro de terceiros ou de um jornal antigo), garantindo transparência ao leitor e permitindo que outros curiosos continuem a pesquisa a partir dali.
A Serendipidade na Pesquisa
Outro fator maravilhoso relatado é a “serendipidade” — o ato de encontrar algo valioso enquanto se procura por outra coisa completamente diferente. Staudt possui uma planilha gigantesca de ideias e anotações. Muitas vezes, ao pesquisar recortes da Copa do Mundo de 1986 na Zero Hora para uma pauta específica, seus olhos esbarram em um anúncio de página inteira da extinta loja “A Cambial” (famosa rede de fotografia e eletrônicos). Imediatamente, ele anota a ideia, levanta a história da empresa, busca o acervo fotográfico da loja e gera uma nova e fascinante crônica para o Almanaque, alimentando a memória afetiva de milhares de gaúchos.
A Rotina Extenuante e o Olhar Treinado do Repórter
Durante a entrevista, Alberto Dal Molin questiona como alguém pode ser capaz de produzir tanto conteúdo de alta qualidade simultaneamente. A resposta de Staudt revela uma rotina disciplinada que beira o esgotamento, mas que é sustentada pelo amor ao ofício.
O jornalista explica que sua rotina é moldável. Em semanas em que está cobrindo as férias de um colega (como o Antônio Carlos Macedo, no comando do noticiário matinal da Gaúcha), ele acorda às 3h30 da madrugada, chega à emissora às 4h, ancora o programa ao vivo até às 8h da manhã e, somente depois disso, senta para redigir o Almanaque Gaúcho para a edição do dia seguinte. Quando está em sua grade normal, ancorando o programa Gaúcha Mais à tarde (às 15h), a rotina se inverte: ele escreve a coluna pela manhã, acompanha o hard news (noticiário quente), alinha pautas com a produção e à tarde assume o microfone.
Staudt personifica o conceito moderno do jornalista “multimídia”: ele escreve para o jornal impresso, atualiza o portal digital, ancora programas de rádio e alimenta redes sociais. Como é possível dar conta? A resposta é pragmática: tempo de voo e treinamento.
O olhar jornalístico, como bem resume o comunicador, é semelhante ao olhar clínico de um médico dermatologista (analogia perfeita feita por Dal Molin). Um médico experiente bate o olho em uma mancha na pele e diagnostica em segundos o que um leigo jamais veria. O jornalista, após décadas de profissão, caminha pela rua, passa pela Praça da Matriz em Porto Alegre, olha para o Monumento a Júlio de Castilhos e questiona: “Por que há uma escultura de um dragão (uma serpe) aqui?”. O que para a maioria dos transeuntes é apenas paisagem invisível, para o olhar treinado de Staudt transforma-se na semente de uma reportagem brilhante.
Conselhos de Ouro Para os Futuros Jornalistas: Fuja da Bolha
Como o Canal Energicy possui um foco claro em desenvolvimento pessoal e na criação de oportunidades para os jovens, Dal Molin pede que Staudt deixe um conselho para aqueles que desejam trilhar o complexo caminho da comunicação social no Brasil.
O jornalista destaca que o mercado mudou vertiginosamente nos últimos 25 anos. A era digital, que causou o declínio das tiragens impressas e fechou muitas portas tradicionais, também abriu uma infinidade de novas janelas (podcasts, canais no YouTube, newsletters, reportagens independentes, data journalism).
Contudo, a ferramenta e o meio de transmissão não são os elementos principais; o que sustenta uma carreira é o conteúdo e o respeito ao público. Staudt faz um alerta vital sobre o maior perigo da atualidade: a tirania dos algoritmos das redes sociais. Nós vivemos na “Era das Bolhas”. O algoritmo nos entrega exatamente e unicamente aquilo com o que já concordamos, os temas que já consumimos e as opiniões que afagam os nossos vieses cognitivos.
O conselho de ouro de Leandro Staudt para um jovem jornalista é: fure a sua bolha e invada outras bolhas. Leia jornais e sites que possuem linhas editoriais contrárias ao seu pensamento. Leia sobre assuntos de economia mesmo que a sua paixão seja o esporte. Estude história mesmo que você queira cobrir tecnologia. O jornalista não pode se dar ao luxo da ignorância seletiva, pois ele nunca sabe qual será o tema da sua próxima entrevista ou o foco de sua próxima grande cobertura. Um profissional raso será rapidamente engolido pelo mercado; um profissional com visão holística do mundo e ampla bagagem cultural terá lugar cativo em qualquer veículo.
Inovação e Desenvolvimento: O Encerramento Literário
Para coroar a entrevista, Alberto Dal Molin Filho, fiel ao seu costume de trocar conhecimentos através da literatura, presenteia Leandro Staudt com uma de suas obras mais instigantes: Desenvolvimento Harmônico e Inovação.
Dal Molin explica ao jornalista a tese audaciosa contida nas páginas de seu livro. Ele contrapõe o modelo consagrado da “Hélice Tripla” (de Henry Etzkowitz) — que baseia o desenvolvimento da inovação na interação entre Universidade, Empresa e Governo — argumentando que essa visão é incompleta e perigosa. O autor defende que qualquer projeto de desenvolvimento (especialmente os que envolvem financiamento estatal e áreas como a nanotecnologia) deve obrigatoriamente incluir dois novos pilares inegociáveis: os Direitos Humanos (o direito à vida) e a Sustentabilidade (a garantia de que as futuras gerações possuirão os recursos necessários para a sobrevivência).
Staudt agradece imensamente o presente, prometendo devorar a leitura com a curiosidade que lhe é inerente, e parabeniza Dal Molin pelo primeiro ano de vida e pelo enorme sucesso do Canal Energicy no YouTube.
Conclusão: O Guardião da Memória Gaúcha
A conversa registrada entre Alberto Dal Molin Filho e Leandro Staudt é muito mais do que um bate-papo entre duas mentes brilhantes. Trata-se de um manual sobre como construir credibilidade e respeito no mercado de trabalho.
A dedicação de Staudt ao jornalismo de memória e pesquisa histórica não é um mero passatempo. Ao desenterrar a poeira dos séculos e recontar a fundação de bairros, a chegada de tecnologias obsoletas e a história de empresas e pessoas que moldaram o Rio Grande do Sul, ele realiza um serviço de ancoragem cultural. Em tempos de superficialidade e apagamento histórico, ler o Almanaque Gaúcho é lembrar de onde viemos, para que possamos, com maior clareza, decidir para onde queremos ir.
O menino que queria ser jogador de futebol acabou vestindo a camisa 10 do jornalismo. E todos nós, leitores e ouvintes, somos os grandes beneficiados por essa mudança de planos.







