Em um encontro marcado pela profundidade e pela troca genuína de ideias, gravado no ambiente acolhedor da Livraria Paisagem, localizada no Shopping Carlos Gomes em Porto Alegre, o jornalista, escritor e filósofo Felipe Daroit foi o convidado especial do canal Dal Molin | Energicy. Conduzida por Dal Molin, a conversa percorreu os vinte anos de uma trajetória multifacetada que se iniciou na sonoridade intimista do rádio do interior gaúcho, atravessou a cobertura incisiva de episódios marcantes do jornalismo brasileiro e culminou em uma reflexão filosófica urgente sobre a sociedade contemporânea, o vício nas redes sociais e a busca por sentido em meio ao caos digital.
Com uma carreira consolidada nos principais veículos de comunicação do Rio Grande do Sul e com quatro livros publicados, Daroit representa uma voz singular no panorama intelectual atual. Sua capacidade de transitar entre a frieza dos fatos jornalísticos, a estrutura conceitual do Direito e o rigor da Filosofia o transformou em um cronista atento e crítico dos comportamentos modernos, desafiando a lógica da vida performática e do consumo acelerado de futilidades.
Da Paixão Infantil pelo Rádio ao Primeiro Microfone aos 15 Anos
A relação de Felipe Daroit com a comunicação nasceu no aconchego do ambiente familiar na cidade de Nova Brécia, um pequeno município no interior do Rio Grande do Sul. Em uma época em que o mundo ainda não desfrutava da conectividade instantânea dos dias atuais, o rádio exercia um papel central na integração social e na rotina das famílias. Ouvindo os programas ao lado do pai e do avô, que mantinham o aparelho ligado ao acordar e ao se deitar, o jovem Felipe desenvolveu um fascínio precoce pela linguagem radiofônica, encantando-se com as transmissões esportivas, os boletins informativos e o universo das radionovelas.
Esse encantamento logo se transformou em vocação prática. Ainda na pré-adolescência, Daroit exercitava a locução em casa, imitando os narradores e repórteres que ouvia na sintonia das emissoras regionais. Aos 15 anos, surgiu a oportunidade que selaria o início de sua trajetória profissional: o surgimento de uma rádio comunitária em sua cidade natal, a Bress FM. Percebendo a necessidade da rádio por novos colaboradores, Felipe solicitou o apoio de um tio para agendar um teste. Ao microfone, demonstrou a desenvoltura de quem já havia treinado silenciosamente por anos, sendo prontamente contratado para anunciar horários, boletins meteorológicos e informações locais.
A experiência na Bress FM durou até os seus 17 anos, quando a busca pela formação acadêmica o motivou a se mudar para Porto Alegre para cursar Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). A transição para a capital exigiu determinação e adaptabilidade. No primeiro semestre da faculdade, antes de ingressar em veículos de comunicação de grande porte, trabalhou como garçom no Bistrô do Margs, espaço cultural situado no coração da capital gaúcha, vivenciando o aprendizado prático da disciplina e do contato humano direto.
O Jornalismo Sem Filtro: A Vivência do Repórter e as Coberturas Marcantes
No segundo semestre da faculdade, Felipe Daroit foi aprovado em um processo seletivo concorrido na Rádio Bandeirantes de Porto Alegre, ingressando oficialmente como repórter. Sua bagagem acumulada no interior provou ser um diferencial decisivo, permitindo uma rápida adaptação às exigências do radiojornalismo da capital. Pouco tempo depois, ingressou na equipe da Rádio Gaúcha, veículo onde atuou por quase 15 anos, consolidando-se como um dos nomes mais reconhecidos do repórter de rua e, posteriormente, como apresentador de programas de grande audiência.
A rotina no jornalismo de frente exigia um compromisso diário exaustivo. Durante uma década, Daroit despertava diariamente às 4h15 para comandar as coberturas matinais do veículo no horário de pico de audiência. Essa imersão no cotidiano urbano colocou o repórter diante da crueldade e do sofrimento humano de maneira ininterrupta: assaltos, latrocínios, sequestros, incêndios e tragédias climáticas faziam parte da pauta diária. A sobrecarga de vivenciar situações extremas trouxe consequências severas para a sua saúde mental, culminando em episódios de ansiedade e síndrome do pânico após cobrir o trágico acidente com um ônibus de agricultores em Santo Cristo.
Entretanto, o momento mais marcante de sua trajetória na reportagem ocorreu na cobertura da tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria. Enviado como um dos primeiros repórteres da capital ao local do desastre, Daroit testemunhou o cenário devastador e inesquecível da perda massiva de jovens vidas. O impacto de ver os corpos organizados em um ginásio municipal e ouvir os celulares tocando incessantemente nos bolsos das vítimas — chamadas desesperadas de pais e familiares em busca de notícias — marcou profundamente sua percepção sobre a fragilidade humana e o peso ético da profissão jornalística.
A Busca pelo Conhecimento: Direito, Comunicação Institucional e a Filosofia
Após cobrir grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo de 2014 no Recife, Felipe Daroit sentiu a necessidade de expandir seus horizontes intelectuais e romper com a mecanização da rotina na redação. Movido pelo desejo de adquirir ferramentas analíticas mais complexas, decidiu ingressar no curso de Direito. A graduação em ciências jurídicas proporcionou-lhe uma compreensão detalhada das estruturas sociais, das leis e do funcionamento das instituições públicas.
Essa nova bagagem facilitou sua transição para a comunicação institucional. Em 2020, ao se despedir da Rádio Gaúcha, assumiu a coordenação de comunicação da Defensoria Pública do Rio Grande do Sul, posição em que liderou estratégias de comunicação interna, assessoria de imprensa e gestão de imagem por mais de seis anos. Foi durante a faculdade de Direito, contudo, que Daroit teve contato com a disciplina de Filosofia do Direito, matéria que despertou sua verdadeira paixão pelo pensamento crítico.
A imersão nas obras de filósofos clássicos e modernos, como Friedrich Nietzsche, Arthur Schopenhauer, Sêneca e Marco Aurélio, transformou sua visão existencial. A Filosofia deixou de ser apenas um campo de estudo acadêmico para se tornar uma lente de análise do comportamento humano e uma ferramenta de preservação da própria lucidez.
A Literatura Ácida e o Fenômeno nas Redes Sociais
A fusão entre a experiência jornalística, o conhecimento jurídico e o repertório filosófico impulsionou Felipe Daroit a explorar a literatura e a escrita de crônicas. Em um movimento na contramão das tendências das redes sociais — marcadas pela superficialidade e pela ditadura dos vídeos curtos —, Daroit passou a utilizar o Instagram para publicar textos densos, profundos e provocativos organizados em formato de carrossel. O resultado foi um crescimento orgânico impressionante, alcançando mais de 115 mil seguidores ávidos por análises sinceras sobre a realidade.
Sua produção literária reflete um combate direto à ilusão do pensamento positivo ingênuo e aos manuais simplistas de autoajuda. Por meio de seus livros publicados, o autor propõe um choque de realidade necessário para o homem contemporâneo:
A Ensandecida Geração do Like: Lançado como uma crítica mordaz à dependência digital, o livro analisa o imperativo da validação online e o vício em smartphones. O autor baseia-se em pesquisas e observações do cotidiano para expor como a exposição contínua às telas causa um verdadeiro “derretimento do cérebro”, elevando índices de ansiedade e depressão entre os jovens devido à comparação social constante.
Como Suportar o Caos: Reunião de 35 crônicas marcadas pelo sarcasmo e pela ironia realista. A obra recusa discursos evasivos e convida o leitor a encarar as contradições da existência, incentivando a busca por autonomia e sobriedade em uma sociedade entorpecida.
Contemplação Livre: Desenvolvido em parceria com o fotógrafo Marcelo Messias, o livro combina registros fotográficos da natureza com textos reflexivos sobre a importância de desacelerar, respirar e contemplar o mundo físico além do vidro dos dispositivos eletrônicos.
A Epidemia das Aparências: Obra que aborda a solidão moderna mascarada pelo excesso de conexões virtuais. Daroit identifica o uso desmedido de aplicativos de mensagens instantâneas como o WhatsApp e a obsessão por exibir uma vida perfeita como as grandes pragas comportamentais do século XXI, defendendo o resgate da convivência familiar e do contato olho no olho.
O Sopro da Vida: Reflexões sobre Saúde, Finitude e o Valor do Presente
Recentemente, a trajetória de Felipe Daroit foi atravessada por um grave alerta de saúde. Após ser acometido por uma pneumonia durante o inverno, exames complementares diagnosticaram uma embolia pulmonar provocada pelo deslocamento de um trombo sanguíneo. O episódio, de extrema gravidade clínica, colocou o escritor diante da iminência da própria finitude e exigiu um recondicionamento radical de sua rotina e de suas prioridades existenciais.
Essa vivência dolorosa reforçou os preceitos filosóficos que Daroit já defendia em suas crônicas. Ao reconhecer que a vida é um acontecimento breve e imprevisível, o jornalista passou a questionar o culto ao excesso de trabalho, a glorificação da exaustão e a ansiedade contínua em relação ao futuro. O processo de recuperação intensificou sua busca pelo essencial: o cultivo das relações afetivas profundas, o tempo de qualidade com os pais e a presença consciente no momento presente.
A experiência ressalta a urgência de abandonarmos a existência performática. Em vez de desperdiçar energia construindo uma imagem fictícia para aprovação de desconhecidos na internet, Daroit defende o retorno à simplicidade, ao contato direto com a terra, à literatura e às conversas sem pressa.
Conclusão: O Papel do Pensador Público no Século XXI
Ao final da entrevista, marcada pelo respeito mútuo e pela convergência de ideais, Dal Molin presenteou o convidado com o seu livro Desenvolvimento Harmônico e Inovação. A obra propõe uma nova abordagem para o progresso tecnológico e econômico, sustentada por dois pilares fundamentais: o direito à vida através dos direitos humanos e a preservação ambiental por meio da sustentabilidade genuína.
A trajetória de Felipe Daroit sintetiza o papel crucial do comunicador e do intelectual contemporâneo. Em uma época dominada pela velocidade estéril e pelo ruído das redes digitais, sua obra permanece como um convite à pausa, ao pensamento crítico e ao resgate da essência humana. Através de sua voz no rádio, de sua escrita ácida e de sua postura diante da vida, Daroit nos lembra que viver de forma autêntica exige a coragem de desligar as telas, encarar a realidade sem filtros e valorizar cada instante do tempo que nos é concedido.







